LulaA condenação do ex-presidente Lula, pelo juiz Sérgio Moro, na última semana, colocou um tempero a mais na já tumultuada disputa pela presidência em 2018. Favorito nas pesquisas de intenção de voto, o ex-chefe de Estado corre o risco de ficar de fora do pleito, enquanto possíveis candidatos começam a vislumbrar um futuro mais otimista.

Luiz Inácio Lula da Silva foi condenado em primeira instância, no dia 12 deste mês, a nove anos e seis meses de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Para o magistrado da 13ª Vara Federal de Curitiba, ficou evidenciada no processo a culpa do petista no suposto recebimento de propina da empreiteira OAS através da compra e reforma de um apartamento tríplex no Guarujá, São Paulo, em troca de favorecimentos em contratos com a Petrobras, como parte de um amplo esquema de corrupção envolvendo diretores da estatal, prestadoras de serviços e políticos. No entanto, como não teve sua prisão decretada, o ex-presidente, que nega as acusações, pode recorrer em liberdade, e, por enquanto, permanece elegível. Mas, se for condenado em segunda instância, deve ficar impedido de concorrer a um novo mandato de chefe da República no ano que vem. O que isso significaria para o cenário político do Brasil?

Daqui a exatamente um ano, em 20 de julho de 2018, será iniciado o período no qual os partidos poderão realizar convenções para definir seus candidatos. Se a decisão da segunda instância, no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), de Porto Alegre, for pela confirmação da condenação, Lula se torna inelegível com base na lei da Ficha Limpa. Se isso ocorrer antes do registro de sua candidatura, ele provavelmente não conseguirá se candidatar. Se ocorrer depois, ele terá seu registro anulado ou, dependendo de um recurso, poderá se candidatar e concorrer sub judice (na dependência de determinação judicial). Se concorrer e for eleito, ele, se condenado, poderá ter sua diplomação anulada antes de assumir a presidência. Caso assuma o cargo, o processo deve ser suspenso.

O cientista político Carlos Pereira, da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (EBAPE), da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ), acredita que é muito pouco provável Lula estar apto a disputar as eleições de 2018. Segundo ele, a sentença de Sérgio Moro foi bastante consistente e a tendência é a de que seja mantida na segunda instância. O professor destaca que, ao contrário do que teria tentado sugerir o ex-presidente, o futuro de Lula, como réu, deve ser, sim, decidido pela Justiça, e não pelo eleitorado. “O eleitor avalia os governantes e potenciais governantes. Mas, para quem comete crime, o julgador não é o eleitor, como o ex-presidente Lula tentou sugerir quando tentou desmerecer a decisão do juiz Sérgio Moro. Então, eu acho que a maior probabilidade é a de que o ex-presidente Lula esteja fora do jogo.”

Em pesquisa recente do DataPoder360, realizada pouco antes da sentença do ex-chefe de Estado, Lula apareceu mais uma vez como grande favorito para 2018, mas com uma vantagem menos confortável. Isso porque, com 26% das intenções de voto, no melhor dos cenários analisados, ele estaria em empate técnico com o pré-candidato do PSC, o deputado federal Jair Bolsonaro, um dos principais nomes da direita brasileira, que aparece com 21%.

Populista como Lula, mas em outro espectro, Bolsonaro vem se apresentando como a melhor alternativa para moralizar a política e aproveitar todo o potencial que o país possui mas que estaria sendo desperdiçado por conta de gestões ineficientes e corruptas. Em seus discursos, o parlamentar, envolvido em inúmeras polêmicas, vem se fortalecendo com a defesa de valores cristãos e tradicionais, do militarismo, da meritocracia e do livre mercado e críticas ao desarmamento, à ideologia de gênero e a políticas afirmativas para minorias, entre outras. Nascido em Campinas, interior de São Paulo, representa o Rio de Janeiro, onde tem o apoio de grande parte da população.

Embora forte e apoiado por uma militância apaixonada, Bolsonaro, de acordo com o professor Pereira, tem poucas chances de crescer até as eleições do ano que vem. Para o especialista, a maioria do eleitor brasileiro possui um perfil bem diferente daqueles que seguem o deputado, que ainda pode ser atrapalhado, no período de campanha, pelo fato de pertencer a um partido com pouca distribuição nacional.

“Eu acho que a candidatura de Bolsonaro é uma candidatura muito específica, de um estrato populacional desiludido com a política e ávido por saídas desses conflitos de forma messiânica ou de forma individualista ou populista”, afirmou o cientista político, sublinhando que, além disso, o candidato do PSC deve ter menos tempo de TV e menos conexões locais e estaduais. “Acredito que, ao longo do processo eleitoral, a candidatura de Bolsonaro tende a se esvaziar”.

Outro nome forte na corrida para 2018, conforme apontam as pesquisas, é o do atual prefeito de São Paulo, João Dória, do PSDB, que aparece como terceiro colocado na pesquisa do DataPoder360, com 13%, em um cenário no qual Lula teria 23% e Bolsonaro, os mesmos 21%. Empresário bem sucedido e apresentador de programas de televisão, foi eleito no ano passado explorando a imagem de um gestor do setor privado, em oposição aos políticos tradicionais. Nos seus primeiros meses de governo, entrou em choque com defensores dos direitos humanos e artistas, criou problemas no trânsito, reduziu investimentos, criou um grande pacote de desestatização e atacou Lula. Para muitos, o prefeito gestor acabou perdendo um pouco do foco à frente da máquina pública, razão pela qual foi criticado até por colegas de partido, como José Aníbal e Fernando Henrique Cardoso. Ainda assim, conseguiu manter números expressivos de aprovação, acima dos 60%, segundo o Ipespe.

Dória, segundo Carlos Pereira, mesmo não tendo o mesmo número de eleitores de Bolsonaro hoje, dispõe de um potencial maior de crescimento, se levados em conta o poder do seu partido e também suas características próprias.

“A figura pessoal permite a ele trilhar esse caminho mais individual, mais pessoal. Mas, ao mesmo tempo, Dória estaria inserido em uma estrutura partidária mais sólida, mais concreta do que Bolsonaro. No caso, Dória teria infinitamente mais chances de prosperar num cenário nacional, de disputa pela presidência”, opinou, explicando que ainda é muito cedo para avaliar a administração do prefeito e lembrando que ele precisará vencer uma grande disputa interna, no PSDB, se quiser concorrer à presidência em 2018.

Além dos políticos citados, muitos outros nomes são cogitados para o pleito do ano que vem, na direita, na esquerda, no centro e em todas as outras direções e sentidos. Até as eleições, muita coisa ainda deve acontecer na política brasileira. O destino do presidente Michel Temer, do PMDB e de seus aliados começará a ficar mais claro, a operação Lava Jato seguirá adiante, políticos e eleitores indecisos começarão a ter ideias mais claras etc. Para o professor Pereira, os próximos meses devem confirmar a impossibilidade de Luiz Inácio Lula da Silva, um dos políticos mais populares da história do Brasil, concorrer ao Planalto, deixando o cenário bem aberto, inclusive para candidaturas que nem estão sendo consideradas no momento.

Mas, e se Lula não for condenado? Seus adversários terão força para derrotá-lo no voto direto? Que impacto a condenação do ex-governante, em primeira instância, poderá ter sobre o processo eleitoral? Afinal, que tipo de alianças o PT e Lula estão dispostos a fazer para voltar a governar o país? Enfim, seja qual for o destino do ex-presidente, tudo indica que a corrida de 2018 deve ser marcada pelo Lula contra todos ou todos sem Lula.

Presença ou ausência de Lula na urna definirá o perfil da eleição em 2018

A condenação em primeira instância do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ganhou status de definidora de cenários para a eleição do ano que vem, praticamente empatando com o impacto da Lava Jato nas conversas com líderes políticos. É consenso que a permanência ou não de Lula na urna eletrônica irá determinar que tipo de pleito ocorrerá e qual o perfil de seus candidatos, independentemente do fato de que a viabilidade de o petista ser eleito ser bastante remota no cenário atual. O ex-presidente no páreo obrigará a construção de uma candidatura mais forte no campo conservador/governista, com retórica antipetista afiada. É isso ou arriscar ver o ex-presidente rumar ao segundo turno contra o nosso equivalente ao clã Le Pen francês, Jair Bolsonaro, com amplas chances de uma hoje improvável vitória lulista.

ALTERNATIVA DORIA

O tucano João Doria é hoje quem se coloca melhor nesse papel. O prefeito paulistano, contudo, joga no time do governador Geraldo Alckmin, que vem costurando sua candidatura com solidez e tem preferência na fila. Isso se conseguir unir o partido, cada dia mais fragmentado. A questão é saber o óbvio: se o governador irá livrar-se das acusações na Lava Jato, se consegue decolar em pesquisas, se logra ser minimamente conhecido no Nordeste e, por fim, se tem a chama do antipetismo necessário. Um aliado do tucano lembra seu desempenho na reeleição de 2014, quando São Paulo deu uma vitória esmagadora ao PSDB no pleito nacional, e o fato de que um Doria candidato a governador poderia manter esse palanque mais agressivo no maior colégio eleitoral do país -enquanto Alckmin buscaria vender outra imagem fora de suas fronteiras. Não soa fácil.

DISPUTA COMPLEXA

Sem Lula, contudo, o cenário é totalmente diverso. Primeiro pela lacuna à esquerda, embora a pecha de perseguido que o ex-presidente irá trombetear se impedido deverá funcionar como excelente cabo eleitoral. Mas a disputa fica mais complexa mesmo ao centro. Sem a necessidade de uma estridência antipetista, Alckmin ganha densidade. Mas também é previsível que a antiga terceira via representada pela ex-senadora Marina Silva (com ou sem o “punch” de um Joaquim Barbosa) irá emergir com mais força, assim como talvez um outro nome no condomínio governista. Temer, se estiver no cargo como a conjunção astral da semana parece indicar, será invariavelmente um peso para qualquer postulante – daí o balé de Alckmin para defender desembarque do PSDB após reformas, seja lá o que for isso. Mas se houver algo que se assemelhe a uma recuperação econômica mais visível, o que parece improvável, uma vaga se abre.

UMA BARAFUNDA

Esse cenário é o que mais reproduz, de saída, a barafunda do pleito de 1989. Quaisquer 15% de intenção de voto viram perspectiva de segundo turno. Os mais otimistas, como o filósofo Eduardo Giannetti da Fonseca, acreditam que o debate seria estimulado e o ambiente, arejado. Eu tendo a duvidar da possibilidade de discussões reais em campanhas eleitorais, mas ser pessimista é “default” nessas terras. Seja como for, tudo isso apenas comprova que Lula segue sendo o ator político mais importante do Brasil. Desgraçadamente para o país, já que esse tipo de dependência apenas prova a infância institucional da pátria, para não entrar em considerações pessoais ou morais. O pior é esperar o rosário de recursos que deverá atrasar a decisão de segunda instância que pode ou não tirar Lula de cena. Tudo gira em torno disso, salvo mais piruetas no roteiro da crise nossa de cada dia. Não gostaria de estar na pele dos magistrados do TRF-4 em Porto Alegre

‘Bolsonaro não disputa, Doria por enquanto não é nada. Pode ser o Alckmin’, diz Lula

Em entrevista aos jornalistas José Trajano, Juca Kfouri e Antero Greco, no canal de Trajano no Youtube, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva comentou as eleições de 2018 e os possíveis adversários. “Bolsonaro não disputa e, se disputar, não tem chance. Doria tem que provar, por enquanto não é nada. É só o João trabalhador que não trabalha. Governe São Paulo”, disse. “Pode ser o Alckmin ou podem tentar inventar alguém, não sei quem.” Disse ainda que quer voltar a ser presidente “para provar que é possível recuperar este país”. Questionado sobre eventual candidato para ocupar seu lugar na disputa caso não participe da eleição, afirmou que poderia ser um dos governadores do PT ou mesmo Fernando Haddad. “Haddad pode ser uma personalidade importante, mas tem que percorrer o Brasil.” O PT hoje governa Minas Gerais (Fernando Pimentel), Bahia (Rui Costa), Ceará (Camilo Santana), Piauí (Wellington Dias) e Acre (Tião Viana).

Ainda sobre 2018, afirmou que gostaria que houvesse “uma penca de gente nova”, como alternativas eleitorais, e que Haddad poderia ser “um grande candidato” se tivesse sido reeleito. “Liderança política não se faz da noite para o dia. Para chegar à presidência precisa de um cara que tenha base, que (tenha gente que) defenda ele no bar.” Lula comentou as decisões recentes do juiz Sérgio Moro, sua condenação e o despacho em que o magistrado sequestra seus bens e bloqueia suas contas bancárias. “Eu estou como o técnico do Corinthians, cada jogo é um jogo. Em algum momento vai se fazer justiça”, disse. “Acharam (conta no exterior) do Serra, do Aécio. Por que não acharam a minha? Eles não estão julgando o Lula, estão julgando um jeito de governar.” Segundo Lula, a Lava Jato “montou um esquema de comunicação que nem partido político tem”. “Tudo tem que sair no jornal. Juiz não tem que se preocupar com a opinião pública.”  A operação está “levando o país à destruição”, disse. E ele mesmo, pontuou, é vítima de uma perseguição diária. “Nem o velho Prestes sofreu o massacre que sofro todo santo dia.” Ele mencionou o empresário Léo Pinheiro, da OAS, como personagem do qual a força tarefa da Lava Jato tentou de todas as formas obter informações que pudessem incriminá-lo, sem sucesso. “Ele está há dois anos preso. E não tem nada a falar do Lula. O que eles conseguiram? (Que ele dissesse) ‘o Lula sabia’.”

Entre jornalistas da área esportiva, Lula afirmou que tinha mais expectativas sobre o jogo Palmeiras x Corinthians do que sobre a decisão de Moro que o condenou a 9 anos e 6 meses. “Estava mais preocupado com o jogo, porque não sabia o que ia acontecer.” A sentença, disse, já era esperada. “Moro não tinha como me absolver. É refém do pacto que fez com a imprensa.” O Corinthians derrotou o Palmeiras por 2 a 0 no mesmo dia em que foi divulgada a sentença de Moro. Lula mencionou o procurador Deltan Dallagnol, que ficou famoso pelas provas que exibiu à imprensa numa montagem de power point. “Aquele cidadão foi à Disney e criou aquela fantasia e a imprensa transformou em verdade.”

Lula e PT

O ex-presidente foi questionado sobre se, hoje, considera um erro não ter sido candidato à presidência da República em 2014, no lugar de Dilma Rousseff, e quais erros o PT e a ex-presidenta cometeram. Para ele, Dilma errou politicamente ao não privilegiar o diálogo. “A política não estava no cotidiano dela. Às vezes eu acho que ela achava que era perder tempo uma conversa. Mas se o cara foi eleito deputado, ele tem importância. Dilma tinha dificuldade na relação política”, disse. Na condução da política econômica no segundo mandato de Dilma, Lula avalia que “faltou compreensão de que tinha que parar de desonerar”. Disse ainda que era preciso trabalhar com a arrecadação de maneira que esta “permitisse que o Estado continuasse a fazer as coisas em grau menor”. Eu pegaria 100 bi (das reservas internacionais) e faria investimento em infraestrutura. O pessoal quis cortar aqui e ali, cortar até aposentadoria do pescador.”

O ex-presidente foi questionado sobre por que, quando tinha mais de 80% de aprovação quando governou, não promoveu reformas estruturais como a tributária e política. “É muito difícil, porque quem é eleito não quer mudar (o sistema político). Quem tem que fazer a reforma politica são os partidos através dos seus deputados.” Ele observou que não acredita que a atual proposta de reforma, relatada pelo deputado Vicente Candido (PT-SP), será aprovada. “Vai terminar o prazo e não vai fazer.” Sobre a reforma tributária, apontou dificuldades políticas que impediram o andamento de suas propostas. “Fiz dois projetos de reforma tributária. Fiz acordo com governadores, partidos, sindicatos, mandei ao Congresso na perspectiva que fosse aprovada por unanimidade. Mas o Arlindo (Chinaglia) deu na mão do Sandro Mabel (então no PR de Goiás), que foi relator. O primeiro a se rebelar foi Serra, que não aceitava conversar com Mabel”, contou. “A reforma tributária tem que ser feita ponto a ponto, e não num pacote como tentei. Tem que levar em conta que o pobre não pode pagar mais imposto do que o rico.”

 

Fonte: SputinikNews/Folha/RBA/Municipios Baianos

Share Button