Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro foram oficialmente abertos por uma cerimônia de quatro horas e um discurso de menos de dez segundos. Michel Temer, presidente interino do Brasil, cumpriu com sua obrigação e anunciou o início da Olimpíada, mas mas o fez com uma única frase: “Depois desta maravilhosa festa, declaro inaugurados os Jogos Olímpicos de Rio, que se celebram na trigésimo primeira olimpíada da era moderna”- cujo final mal se escutou por causa das vaias. O conservador Temer ostenta a presidência enquanto se decide o futuro político da presidenta eleita, Dilma Rousseff, afastada do poder por um processo de impeachment que ainda terá seu capítulo final neste mês. Enquanto isso, ele e seu Governo arrastam uma aprovação de 14%.

As poucas palavras do presidente interino puseram fim a semanas de grande especulação no Brasil sobre como e quando Temer enfrentaria uma arena como o Maracanã. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, a organização planejava subir o volume da música ou lançar mão de algum efeito sonoro para abafar o som das vaias. À tarde,  o Rio de Janeiro já havia registrado protestos contra o Governo. Chegada a noite, as redes sociais debatiam se Temer se atreveria a falar. Que ele passasse a cerimônia não na primeira fila, mas num assento algo apartado e por trás do presidente do COI, Thomas Bach, dificilmente ao alcance das câmeras, não ajudou a acalmar os rumores. Também não  ajudou que ele resolvesse pular uma parte do roteiro previsto no guia da cerimônia distribuído aos jornalistas para aparecer só ao final de tudo.

A festa não teria como ser cômoda para Temer. Dilma Rousseff declinou o convite – e se manifestou amargamente no Twitter nesta sexta. O mentor dela, o também ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, também não foi, assim como outros ex-mandatários. Temer estrelou uma das cerimônias com menos chefes de Estado da história recente: só 45 presidentes ou chefes de Estado dos aíses participantes dos Jogos foram (menos da metade de Londres 2012). Também não foram vários mandatários sul-americanos, aliados históricos do Partido dos Trabalhadores de Dilma Rousseff, por medo a legitimar com sua presença o Governo interino. Se a estratégia de redução de danos diminuiu a duração da vaia, o ecos da rejeição se fizeram sentir em outros campos. Nos bastidores, uma das estrelas da festa, Caetano Veloso, se fez ver nas redes sociais com um cartaz “Fora, Temer”.

Mesmo se escondendo, Temer é vaiado

Mais do que a impopularidade extrema de Temer, o que se destacou ontem na abertura das Olimpíadas foi sua covardia pusilânime.

Temer fugiu, assustado, melhor, aterrado, das vaias — mas mesmo assim foi alcançado por elas num momento sublime da cerimônia.

A primeira medalha de ouro brasileira foram as vaias a Temer diante não apenas do Maracanã lotado, não apenas dos brasileiros — mas do mundo.

As vaias mostraram, melhor que o espetáculo de abertura, o caráter do brasileiro. Somos um povo que despreza quem trai, quem apunhala pelas costas enquanto sorri, quem usurpa, quem toma pela conspiração sórdida algo que não é seu.

O brasileiro despreza, ainda, a paúra. O jornalista Leandro Fortes lembrou, nas redes sociais, que Dilma suportou estoica insultos de imbecis na Copa do Mundo. Temer se portou como um homem sem fibra e sem caráter, um antiexemplo para os brasileiros.

As manobras para livrá-lo do confronto com a realidade começaram cedo no Maracanã. O protocolo foi quebrado logo no início e seu nome não anunciado.

Depois, quando era inevitável que ele declarasse abertos os jogos, uma fala de oito segundos foi o artifício para tentar escapar de ser notado e vaiado. Um falastrão reduzido a oito segundos por medo da reação.

Não adiantou.

As vaias foram a resposta. O mundo viu o tamanho da rejeição a um golpista sem carisma, sem voto, sem sequer ficha limpa. Quase tão rápidos como o estrondo  popular, e para dar um tom cômico à cena, foram os aplausos inaudíveis do ministro Meirelles, sentado algumas fileiras atrás do chefe detestado.

Meirelles podia passar sem essa operação abafa pessoal. Na antologia das patacoadas é um flagrante memorável, bem como a cena fugidia de Serra cantando Aquarela do Brasil com requebros de boneco desengonçado.

Com o golpe e com Temer, o Brasil regrediu extraordinariamente na imagem internacional. Apenas 45 presidentes e chefes de estado compareceram à cerimônia. Isto é menos da metade do que aconteceu há quatro anos em Londres.

A mídia estrangeira já está repercutindo as vaias da Temer. Que foram, repito, a primeira medalha de ouro brasileira.

Jogos olímpicos: a festa não esconde o descontentamento no Brasil

“Se hoje existe um país que precisa de uma levantada com um espetáculo, mesmo que seja como exercício de relações públicas, este país é o Brasil” assim abre o New York Times o artigo de capa. A TV Globo analisou com mil e um comentaristas políticos, internacionais, esportivos como o Brasil precisava de uma cerimônia como esta para melhorar o “clima do país”. Diziam enfaticamente que as pessoas precisam aprendam a “respeitar a opinião um do outro” como lembrava Galvão Bueno.

Um retrato, televisionado, de espetáculo, e inegavelmente de um país dividido, um governo golpista sem legitimidade primeiro escondido no anúncio das autoridades presentes e depois quando finalmente apareceu por breves segundos foi vaiado ruidosamente.

No Brasil não há nem como começar a esconder os problemas sociais, econômicos e políticos, e a “festa olímpica” serve ao golpista Temer e a tantos que investiram pesado em uma imagem de um país que já ninguém acredita mais , mesmo assim o Globo insistiu nisso em editorial no dia de ontem, Carolina Cacau, professora e estudante do Rio de Janeiro, pré-candidata a vereadora na “cidade maravilhosa” respondeu mostrando as falácias dos argumentos.

O problema da Olimpíada é tamanho que o próprio Temer de manhã divulgou a toda imprensa carta sobre como ela seria oportunidade para mostrar a alegria do país, o unir, e toda uma tentativa de formar um discurso que não consegue esconder a crise, como mostra Diana Assunção, pré-candidata do MRT a vereadora em São Paulo em artigo.

A cerimônia de abertura buscou mostrar um Brasil miscigenado. Um Brasil pátria de todos. Dos negros (monstruosamente mortos pela polícia mais assassina do mundo), da loira Gisele Bundchen, garota de Ipanema na cerimônia. Um país cheio de negros, rigorosa e cuidadosamente escolhidos para falar de um “país de todos”. Um Brasil negro, feliz, mas sem Amarildos, que segue sem ser encontrado.

Na internet, em todo o mundo, o Facebook chama as pessoas a declararem o que sentem com os jogos. Todo um marketing para que bilhões se sintam “pertencendo” ao trending topic mundial. “Só você vai ficar de fora”? Mas quem está dentro do espetáculo elitizado? Com certeza não estão os que foram removidos pelas grandes obras. Não estão os brasileiros desempregados. Na arquibancada além de turistas o que se vê é um retrato em loiro e olhos azuis de um Brasil que não é aquele que anda de transporte público.

Jogos dos imigrantes e refugiados – em meio à construção de mais e mais muros

Do ponto de vista internacional a cerimônia também procurou dar conta de dois pontos fracos, entre outros, do capitalismo internacional. O centro da cerimônia foi sobre “meio ambiente”, justo no país do mega-desastre realizado por uma empresa privatizada, a Samarco, que matou quilômetros do meio-ambiente, desalojou populações para o lucro da “brasileira” Vale e da australiana BHP Billinton. Mas não só no Brasil se vê as consequências ambientais globais do capitalismo.

O outro centro do evento, muito destacado pela imprensa internacional, foi o cuidado em mostrar os imigrantes, os refugiados. Sistematicamente presos no Norte da África, na Turquia, perseguidos na Alemanha pelo Pegida, atacados por parte daqueles que defenderam o Brexit na Grã-Bretanha, perseguidos em todos países sob o “guarda-chuva da ameaça do terrorismo” que ajuda o governo Francês a aprovar ataques ao movimento operário debaixo de decretos de “emergência”. Como se não fossem estes países imperialistas o centro do evento, o pódio das medalhas, mas de forma carnavalesca uma inversão. Os perseguidos são heróis. nem que seja por um dia e para vender uma imagem que “outro mundo é possível”. A cova do mediterrâneo contrasta com a pirotecnia.

Festa em meio à crise social, econômica e política no Brasil

Voltando ao Brasil, Temer se escondeu no mesmo dia que vieram à tona novas pesquisas que mostram como mesmo que a maioria não quer Dilma de volta, também não o querem governando. Temer sofre crescentes críticas tucanas e da mídia por demorar na implementação dos ataques prometidos como a reforma da Previdência.

No dia de hoje, Dilma declarou que se voltasse a seu cargo, algo altamente improvável, chamaria um plebiscito sobre novas eleições, fato que foi prontamente negado pelo presidente do PT. Esta divisão no PT expressa divisões em formas diferentes de aceitar o golpe institucional. Enquanto isso no Twitter, ela reclamava de não estar na abertura e Temer buscava insistir em discurso da união do país, como mostramos aqui. Tal como em sua posse quando discursava “não fale em crise, trabalhe”, seu discurso de união e paz não parece combinar com o país. Não porque ocorram atos de massa. Mas mesmo sem isso, há amplo descontentamento.

No mesmo dia da abertura das Olimpíadas, alguns milhares tomaram as ruas no Rio de Janeiro protestando contra seu governo golpista. Em São Paulo, manifestação contra as Olimpíadas foi reprimida e houve dezenas de presos.

No mesmo dia ofensiva repressiva se fez sentir em São Paulo em repressão, supostamente ao tráfico, na chamada “Cracolândia”.

A festa da “paz” não esconde os múltiplos elementos de crise política, crise econômica e crise social do país. Alguns milhares vaiaram Temer, alguns milhares foram às ruas, alguns poucos, mas em muitas cidades desenvolveram um novo esporte olímpico, tentar apagar a tocha, enquanto há crescentes sentimento da crise econômica, social e política e estas três crises mostram como estas Olimpíadas não resolverão a crise do país.

Ainda está por se ver quanto que o descontentamento no país olímpico virará atos importantes. Possivelmente isso não ocorra. Mas o descontamento se sente em todos lados. Hoje Temer, vaiado, pode dormir relativamente calmo. Amanhã não se sabe. Nenhum show da Anitta, de Caetano e Gil resolverá a contradição de uma promessa de futuro que já não existe, o Brasil potência, o desenvolvimento calmo e lento dia-a-dia de todos, dos empresários e trabalhadores acabou. O tempo das promessas ficou no passado. A falência das Olimpíadas, sobretudo devido a falta de empolgação com ela é mais um 7 a 1 contra a elite brasileira, mais um “grande projeto” não se desenvolve como o que a elite nacional queria que fosse, um fator para sua hegemonia, agregando elementos na crise orgânica da classe dominante do país.

Globo fabrica “aplausos” a Temer junto a vaia estrondosa na abertura da Olimpíada

Não existe país que sedie um evento do porte das Olimpíadas de 2016 sem que ocorram problemas e questionamentos quanto ao custo ou organização das obras.

A poucos dias do início das Olimpíadas de Londres (2012), por exemplo, o governo britânico teve que enviar 3.500 soldados das forças armadas do Reino Unido para reforçarem a segurança após a empresa responsável dizer que não seria capaz de cumprir com o contrato e garantir a paz durante o evento.

Houve atraso em várias obras e, como aqui, muitas foram concluídas em cima da hora.

A apenas quatro dias da cerimônia de abertura, o sistema de Metrô da capital britânica sofreu com diversos problemas. Três das principais linhas que levam à região da Vila Olímpica tiveram complicações e não funcionaram normalmente, atrapalhando a fluidez do trânsito londrino.

A abertura das Olimpíadas de 2016, porém, emocionou o mundo. A mensagem de congraçamento entre os povos e de preocupação com o meio ambiente foi singela e profunda. A delegação brasileira entrou triunfante, numerosa, explodindo em alegria como convém a um país continental como o nosso.

Mas houve um show menos edificante para olhos e ouvidos mais atentos. Um show de covardia e de manipulação jornalística.

A covardia ficou por conta dele mesmo, de Michel Temer, quem, antes do evento, dizia-se “preparadíssimo” para as vaias, mas, na hora agá, não decepcionou e… decepcionou!

Pela primeira vez em uma olimpíada o presidente do país-sede não foi anunciado na cerimônia de abertura. Para evitar as maias, Temer pediu à organização do evento que não citasse seu nome.

Contudo, após a fala do presidente do Comitê Rio-2016 Carlos Arthur Nuzman, Temer fez uma fala rápida para anunciar que os jogos estavam abertos. Seguiu-se uma sonora vaia. Ao fundo, porém, ouviram-se alguns aplausos: eram do camarote onde o presidente interino estava, que a Globo fez ecoarem junto às vaias de modo a que Galvão Bueno pôde anunciar “alguns aplausos”.

Veja o anúncio de Galvão e, em seguida, o vídeo em que a Globo reduz o volume das vaias e aumenta o dos aplausos do camarote de Temer.

 

Fonte: El País/DCM/Esquerda Diário/MSM/Municipios Baianos/Portalg14

Vaias a Temer mostram quanto os brasileiros desprezam quem trai

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