Sexta Feira 13Começa um ministério com apenas 180 dias certos até agora, numa sexta-feira 13. Para os supersticiosos é um início aziago. Temer começou há um bom tempo, tentando costurar sua equipe. Os meios de comunicação favoráveis a ele falavam ao princípio, de um “ministério de notáveis”. Mas logo se viu, como nunca, um loteamento (lotizazzione, hábito em certa política italiana), com cargos para atender apetites, sem conseguir totalmente, tanta era a sede por postos na nova coalizão, boa parte da qual migrou, por oportunismo, do governo Dilma. É o problema das políticas de coalizão, com tantos partidos, ávidos de poder. O PMDB é situação em qualquer momento político. Os nanicos procuram espaço. O PPS renegou o velho passado do partidão (que, aliás, foi por vezes oportunista). Entre os políticos favoráveis ao impeachment, Cristovão Buarque mudou de lado talvez não refeito da maneira como deixou de ser ministro. Marta Suplicy não esconde sua ambição de voltar à prefeitura (afortunadamente, nas pesquisas, Erundina está na frente).

Nas semanas que passaram, ministros eram anunciados e logo em seguida desapeados da indicação. Um evangélico, o pastor Marcos Pereira, do velho criacionismo de uma leitura literal e errônea da Bíblia, iria para o Ministério de Ciência e Tecnologia, com suas ideias retrógradas. Newton Cardoso Jr. foi vetado, por sua juventude e falta de experiência, por generais e coronéis na casa dos sessenta anos. Ele substituiria seu pai que caíra na ficha limpa. Acabou indo para lá Raul Jungman, do PPS, com passado de esquerda que renegou.

Falava-se de diminuir drasticamente os 32 ministérios, para cerca de 11, logo aumentavam para 23, tantas eram as demandas afoitas. Foi necessário fazer fusões, algumas discutíveis. Em 1963, trabalhei no Ministério de Educação e Cultura (MEC), como assessor do ministro, com Betinho, e pude constatar o pouco espaço dos problemas culturais, espremidos pelas enormes diretorias da educação. Ao serem separados, mais adiante, a cultura ampliou seu campo de atividades e influêencia. Vai encolher novamente? E a Previdência, afogada dentro da Fazenda, no feudo de Henrique Meirelles, aliás por 8 anos no governo Lula? Os critérios para equacioná-la serão provavelmente econômicos, no ajuste e nos cortes, sem levar em conta as exigências legítimas dos usuários.

Fica a dúvida sobre o Ministério das Relações Exteriores, agora engordado com a política de comercio exterior, por pressão de José Serra. Pode-se sentir um plano no continente, não tão velado, para mudar as prioridades, perdendo força o MERCOSUL, a UNASUL e, entre nós, os BRICs. Voltará o velho alinhamento com a potência do norte, como “satélite privilegiado”, na concepção de Golbery do Couto a Silva? O primeiro presidente a saudar o governo Temer foi o argentino Mauricio Macri, que evoluciona nesse sentido. O candidato de Cristina, Daniel Scioli, ia em direção contrária. E prepara-se um pós-Maduro e, quem sabe, logo um pós-Correa e um pós-Morales. Não serão necessárias mudanças no México; já está alinhado. As transformações desenhadas parecem ter assim uma certa coordenação. Já o errático Jânio falara de política externa independente. E foi a tônica dos últimos anos, graças a Celso Amorim e a Samuel Pinheiro Guimarães Neto. Como será apoiada a presença do Brasil no Banco de Desenvolvimento dos Brics, com um vice-presidente em Xangai, Paulo Nogueira Batista Jr?

Não esqueçamos que essa nova base aliada tem 58 parlamentares investigados pela Lava Jato. Apesar de afirmações em contrário nestes primeiros dias, ela não poderá perder força? Vários são candidatos à ficha-suja. Aécio Neves, Cássio Cunha Lima e Alkmin, novos aliados do PSDB que entraram na coalizão talvez, na penumbra, poderiam trabalhar para que inquéritos e investigações percam força.

Como reagirá este ministério biônico, de um governo sem votos populares, diante do clamor das ruas e dos movimentos sociais? A truculência policial em São Paulo é um mau presságio.

Enfim, é tempo de seguir na mobilização social e, no que repito sem cessar, em consonância com a Frente Brasil Popular, a Frente Brasil sem Medo, o MST e lideranças religiosas: há que ir trabalhando, nos próximos 180 dias, nas próximas eleições municipais, naquelas de 2018 e, mais ainda, num processo que se estende adiante, na formação de uma Frente Ampla Democrata e Nacional. Políticos os mais diversos como Tarso Genro, Luíza Erundina, Flávio Dino, Jandira Feghali, Jorge Viana, um incansável Lindberg Farias e outros companheiros do PC do B, do PSOL, do PDT e do PT provavelmente se uniriam a esse movimento, que teria de ter as bases sociais como eixo, no repensamento de uma democracia representativa, que tem dados tristes sinais nas últimas votações do impeachment. Haveria que articular-se com uma democracia participativa, como pede Boaventura Sousa dos Santos, com o fortalecimento de plebiscitos e referendos e com a possibilidade de depor mandatários (o famoso “recall”, com um termo ainda sem boa tradução). Tivessem já sido instituídos e não teríamos a imagem deprimente que demos ao mundo nas últimas semanas.

11 dos 24 ministros de Temer apoiaram Aécio em 2014

Metade dos ministros nomeados nesta quinta-feira 12 pelo presidente interino da República, Michel Temer (PMDB), apoiou a candidatura derrotada de Aécio Neves (PSDB-MG) nas eleições presidenciais de 2014.

Temer começou a formar seu governo de maneira mais efetiva no fim de março, quando seu partido, o PMDB, rompeu de vez a parceria com o PT. Nos dias que se seguiram ao desembarque do governo Dilma, Temer se aproximou do PSDB.

Os tucanos inicialmente divergiram sobre a participação no novo governo, mas tomaram a decisão após uma fala do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), segundo quem o partido tem “responsabilidade política” e não poderia se recusar a entrar no governo.

Na lista de 24 ministros confirmada por Temer nesta quinta-feira, três são filiados ao PSDB: o senador José Serra (SP), que assume o Itamaraty; o deputado federal Bruno Araújo (PE), que fica com Cidades; e Alexandre de Moraes, que deixa a Secretaria de Segurança Pública estadual de São Paulo para assumir o Ministério da Justiça.

Além dos três tucanos, estarão no ministério dois outros integrantes de partidos de oposição ao PT que estavam com Aécio no segundo turno: os deputados federais Raul Jungmann (PPS-PE), que vai para a Defesa, e Mendonça Filho (DEM-PE), que assume a Educação.

O bloco peemedebista do novo governo tem quatro integrantes que estiveram ao lado da chapa derrotada em 2014: o senador Romero Jucá (RR), novo ministro do Planejamento; Geddel Vieira Lima (BA), da Secretaria de Governo; e os deputados federais Osmar Terra (RS) e Leonardo Picciani (RJ), que ficam com os ministérios do Desenvolvimento Social e do Esporte, respectivamente.

Completam a lista de apoiadores de Aécio Neves os deputados Maurício Quintella Lessa (PR-AL), que fica com Transportes, e Fernando Bezerra Coelho Filho (PSB), novo ministro de Minas e Energia.

Simpatizantes e neutros

Também compõem o ministério de Temer figuras que ficaram em cima do muro ou não se posicionaram publicamente por conta de disputas eleitorais locais.

É o caso do deputado Ricardo Barros (PP-PR), que assume a Saúde, do ex-deputado Henrique Alves (Turismo), que foi candidato ao governo do Rio Grande do Norte e disputou o cargo sem esclarecer exatamente sua posição política; e de Henrique Meirelles, novo ministro da Fazenda, filiado ao PSD e que foi cogitado para ser vice na chapa de Aécio, negociação que não avançou.

A primeira nomeação de Meirelles, segundo o jornal O Globo, é a do economista Mansueto Almeida para a Secretária do Tesouro Nacional. Almeida foi um dos “cabeças” na montagem da proposta econômica de Aécio Neves em 2014.

Estão ainda no ministério o deputado Ronaldo Nogueira (Trabalho), cujo partido, o PTB-RS, apoiou Dilma, mas que não declarou voto na petista “por razões ideológicas”; e o advogado Fábio Osório Medina, um dos indicados pela oposição como especialista para defender o impeachment de Dilma Rousseff na Comissão Especial do Senado que avalia o caso.

O ministério tem também o general Sergio Etchegoyen, que deixa a chefia do Estado-Maior do Exército e assume o Gabinete de Segurança Institucional; e Fabiano Augusto Martins Silveira, indicado do Senado para o Conselho Nacional de Justiça que assume o Ministério da Fiscalização, Transparência e Controle (ex-CGU).

Apoiadores de Dilma

No ministério de Temer, apenas seis integrantes apoiaram Dilma Rousseff em 2014. Os três mais entusiasmados foram o senador Blairo Maggi, que assume a Agricultura; Hélder Barbalho, que era ministro dos Portos de Dilma e assume a Integração Nacional; e Gilberto Kassab, que, com seu PSD foi o último a desembarcar do governo Dilma, um dia antes da votação do impeachment na Câmara. O ex-prefeito de São Paulo assume o ministério que aglutinará Ciência e Tecnologia e Comunicações.

Também apoiaram Dilma o pastor Marcos Pereira, do PRB, que assume o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior; o deputado federal do PV José Sarney Filho (Meio Ambiente), cuja família tinha um acordo com o PT nacional do Maranhão contra Flavio Dino (PCdoB), que acabou eleito; e Eliseu Padilha, da Casa Civil.

Padilha foi ministro da Aviação Civil no governo Dilma Rousseff, mas abandonou o cargo para articular o governo Temer. Seu nome sempre teve resistência no PT, pelo fato de Padilha não ser um aliado tão firme. “O Temer vai pedir voto para ele. Logo, para a presidenta Dilma”, disse o deputado em outubro de 2014, em um comício em Porto Alegre.

 

 

Fonte: por Luiz Alberto Gomez de Souza, em IHU Online/Municipios Baianos.

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