É provável que Donald Trump rompa o consenso articulado 70 anos atrás de que os Estados Unidos devem atuar como âncora do sistema internacional por meio da promoção de normas globais e garantias de segurança a seus aliados. Essa estratégia revisionista de Trump poderá levar à incerteza e à instabilidade na Europa, Ásia e Oriente Médio, onde o recuo dos EUA teria profundas implicações geopolíticas.

No caso da América Latina, as consequências são em grande parte restritas ao âmbito econômico. O México deverá ser o mais afetado pela abordagem “America First” de Trump. O país tem 80% de suas exportações destinadas a seu vizinho do norte (as quais, por sua vez, possuem 40% de conteúdo dos EUA). Mais da metade de seu investimento estrangeiro direto vem dos Estados Unidos, assim como 26 bilhões de dólares em remessas de mexicanos que vivem nos EUA. Diante disso, o presidente Enrique Peña Nieto se verá forçado a articular a mais profunda reorientação estratégica do país desde a adesão ao Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA, na sigla em inglês) em 1994.

O fim do acordo é improvável por enquanto, já que mais de 10 milhões de empregos nos Estados Unidos dependem dele. No entanto, já não se pode mais descartar uma renegociação fundamental do NAFTA — a qual poderia trazer consequências desastrosas para um país cuja economia tem um comércio bidirecional diário de 1,4 bilhões de dólares com os EUA. Em resposta, o México buscará diversificar suas parcerias e, em particular, fortalecer os laços comerciais com a Europa e a Ásia.

Porém, a crise do NAFTA também cria uma janela de oportunidade para o Mercosul se aproximar do México. Além de benefícios econômicos mútuos, laços mais fortes permitiriam aos governos dos países envolvidos coordenarem melhor estratégias para enfrentar os principais desafios regionais, como o tráfico de drogas e armas, a migração, a ascensão da China, a degradação ambiental e a corrupção.

Um dos principais obstáculos à maior integração regional é a divisão existente há anos na América Latina entre a Aliança do Pacífico e o Mercosul. A relação entre México, membro da Aliança do Pacífico, e Brasil, integrante do Mercosul, exemplifica essa divisão. Apesar de serem as duas principais economias latino-americanas e representar mais da metade do PIB e da população da região, suas visões de mundo são extremamente diferentes. Enquanto o México abraçou a globalização econômica liderada pelos Estados Unidos, as elites brasileiras se mantiveram profundamente relutantes ao comércio globalizado, optando por permanecer uma das economias mais fechadas do G20. Quando o México aderiu ao NAFTA e à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), observadores brasileiros concluíram que o México havia se vendido para o Norte e se transformado em um apêndice dos EUA, renunciando à sua identidade latino-americana. O Brasil articulou ambições geopolíticas maiores, desde o desejo de ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU até a decisão de liderar uma missão de paz das Nações Unidas – passos que os observadores mexicanos consideraram megalomaníacos. Com o então presidente Lula, o Brasil concentrou-se na UNASUL, que exclui o México, e exerceu um papel de liderança independente na América do Sul.

Desde a reeleição de Dilma Rousseff em 2014 e a eleição de Mauricio Macri em 2015, fortaleceu-se no Brasil e na Argentina o grupo daqueles que veem uma maior abertura econômica como condição necessária para iniciar o processo de recuperação. Em 2015, Rousseff e Peña Nieto assinaram acordos visando dobrar os volumes de comércio até 2025, e Macri frequentemente articula seu interesse em uma maior aproximação com a Aliança do Pacífico. Porém, a liberalização do comércio continua sendo altamente seletiva, e as transações comerciais intra-regionais ainda estão entre as mais baixas do mundo. Apesar da retórica pró-comércio adotada por Temer e Macri em reunião recente, os dois presidentes avançaram pouco na eliminação de barreiras que ainda existem dentro do Mercosul devido à busca de proteção para produtos brasileiros e argentinos.

Considerando a situação mexicana, porém, está na hora de articular propostas mais ambiciosas sobre como viabilizar um estreitamento entre o México e o Mercosul. Um elemento-chave será acelerar esforços para assinar um acordo de livre comércio (incluindo a eliminação de barreiras não tarifárias) entre as duas partes – e depois, possivelmente, entre a Aliança do Pacífico e o Mercosul. Reduzir barreiras na região criaria incentivos para melhorar a integração física e o potencial para estabelecer cadeias de valor praticamente inexistentes dentro da Aliança do Pacífico e fracos em toda a América Latina. Ao mesmo tempo, devem-se abordar temas não econômicos, incluindo as questões de segurança já mencionadas.

Uma maior integração latino-americana estaria em sintonia com um fenômeno global mais amplo. Como os Estados Unidos desempenharão um papel muito mais limitado tanto no plano econômico quanto no político, haverá mais espaço e necessidade de se fortalecer a cooperação regional. Por exemplo, com a influência de Washington em declínio na Ásia, os laços entre Nova Deli e Tóquio prosperaram. É provável que, em resposta a Trump, a União Europeia conseguirá se fortalecer. Com eleições legislativas na Argentina neste ano e eleições presidenciais no México e no Brasil em 2018, o tempo para articular qualquer projeto dessa natureza é curto, e a janela de oportunidade tem prazo limitado. Será uma pena se não for aproveitada.

O gabinete dos “amigos” de Trump parece forte, mas tem medo. Por Naomi Kleim

Retrocedamos o vídeo e façamos um reconhecimento do que está sucedendo em Washington agora mesmo. Aqueles que já possuem uma porção absolutamente obscena da riqueza do planeta, e cuja parte cresce cada vez mais a cada ano que passa – o último informe a respeito afirma que oito homens possuem a mesma quantidade de riqueza que a metade do mundo –, está determinada a acumular ainda mais. As figuras centrais do recém nomeado gabinete de Donald Trump não são somente mega ricos, são indivíduos que fizeram sua fortuna sabendo que prejudicavam as pessoas mais vulneráveis do planeta, e que causavam dano ao próprio planeta. Parece ser uma espécie de requisito para o cargo.

Temos aqui o banqueiro trapaceiro Steve Mnuchin, escolhido por Trump para ser o Secretário do Tesouro, e cuja “máquina de execuções hipotecárias” tirou dezenas de milhares de pessoas de seus lares.

Da indústria de despejos à indústria de comida porcaria, de onde saiu o designado por Trump para ser o Secretário do Trabalho, Andrew Puzder. Como diretor executivo da CKE Restaurantes, dona de franquias como a Hardee’s, um império de comida rápida, não lhe bastava pagar aos seus trabalhadores salários miseráveis, que não davam para viver. Várias demandas judiciais acusam sua empresa de roubar salários dos trabalhadores, não pagando as horas extras e outros benefícios.

Passando da comida porcaria à ciência porcaria, chegamos ao escolhido por Trump para ser o Secretário de Estado: Rex Tillerson. Primeiro como executivo, e logo como diretor executivo da Exxon, fez com que sua empresa financiasse o maior volume já visto em projetos científicos daninhos ao planeta, com os quais pressionou ferozmente nos bastidores contra as ações internacionais mais significativas contra o caos climático do planeta. Devido a esses esforços, o mundo perdeu dezenas de anos, quando deveríamos estar nos livrando de nossa dependência insana aos combustíveis fósseis, e isso fez com que se acelerasse a crise do clima. Graças a estas nomeações, um número incontável de pessoas está perdendo suas moradias, por causa de tormentas, da elevação dos níveis marítimos, das ondas de calor ou pelas secas. Em última instância, serão milhões os que verão desaparecer sua terra natal sob as ondas. Como de costume, as pessoas sofrem as primeiras e piores consequências são, em sua imensa maioria os mais pobres, de pele negra e morena.

Casas roubadas. Salários roubados. Culturas e países roubados. Tudo imoral. Tudo extremadamente rentável.

Contudo, a reação popular vinha aumentando, e é precisamente por essa razão que esta quadrilha de diretores executivos andava preocupada com a possibilidade da festa estar a ponto de acabar. Tinham medo. Banqueiros como Mnuchin se lembram do desastre financeiro de 2008 e da forma franca com a que se falou, naquele então, de nacionalizar bancos. Eles foram testemunhas da ascensão do Movimento Occupy, e depois da ressonância alcançada pelo discurso de Bernie Sanders contra os bancos, durante sua campanha de primárias.

Chefões do setor de serviços, como Andrew Puzder, estão aterrorizados pelo crescente poder da “luta pelos 15 dólares”, a principal campanha pelo aumento do salário mínimo, que vem conseguindo vitórias em cidades e Estados de todo o país. E se Bernie houvesse vencido aquela acirrada eleição primária democrata, sua campanha bem que poderia ter terminado com sua chegada à Casa Branca. Imaginemos como isso seria assustador para um sector que depende de modo tão essencial dos abusos trabalhistas para manter os preços baixos e os lucros altos.

E ninguém tem mais razões que Tillerson para temer os movimentos sociais em ascensão. Devido ao crescente poder do movimento climático global, a Exxon se vê submetida a ataques em todas as frentes. Muitos dos oleodutos que transportam seu petróleo se encontram bloqueados, não só nos Estados Unidos mas em todo o mundo. As campanhas de desinvestimento se alastra como o fogo, o que provoca incerteza nos mercados. No último ano, os diversos enganos da Exxon acabaram sendo investigados pela SEC (a Comissão de Investigação de Bolsas de Valores dos Estados Unidos) e por vários promotores estaduais. A ameaça que a Exxon teme, de que o mundo comece a atuar mais fortemente contra a crise climática, é existencial. As metas de temperatura do Acordo de Paris sobre o clima são totalmente incompatíveis com a atividade de queima de carbono que empresas como a Exxon têm em suas reservas, fonte de sua valorização mercantil. Essa é a razão pela qual os próprios acionistas da petroleira vêm se fazendo perguntas cada vez mais incômodas a respeito de se estavam a ponto de terminar com um monte de ativos sem valor nas mãos.

Este é o pano de fundo da ascensão de Trump ao poder: que nossos movimentos começaram a ganhar. Não estou dizendo que foram suficientemente fortes, pois não chegaram a isso. Não estou dizendo que estávamos suficientemente unidos, pois não estávamos. Porém, algo estava sim se movendo a nosso favor, decididamente. Logo, em vez de se arriscar a que houvesse um avanço maior, a quadrilha de viciados em combustíveis fósseis, vendedores de comida de plástico e prestamistas predatórios preferiu se congregar, para tomar o poder e proteger sua mal adquirida riqueza.

Sejamos claros: não se trata de uma transição de poder pacífica. Se trata de uma absorção empresarial. Os interesses que eles vêm exigindo há anos dos dois partidos mais importantes, e que agora, cansados do jogo político, decidiram defender eles mesmos. Aparentemente, tudo isso de tratar os políticos como ruis, toda essas aparências, os subornos legalizados, se tornaram um insulto ao direito divino que eles sentem que possuem.

Assim, tiram de cena os intermediários e fazem o que todo manda-chuva quer quando quer que algo seja feito exatamente como ele quer: faz ele mesmo. A Exxon, de Secretário de Estado, a . Hardee’s, do Secretário do Trabalho, a General Dynamics, de Secretário de Defesa, estão lá sendo representadas diretamente. Depois de décadas de privatizar o Estado aos pouquinhos, resolveram tomar o governo de uma vez. É a fronteira final do neoliberalismo. Por isso Trump e seus designados riem das inúteis objeções dos que acusam esses personagens de possuir conflitos de interesse.

Diante disso, o que podemos fazer? Em primeiro lugar, recordar sempre as debilidades desse grupo, mesmo quando eles exerçam um poder puro e duro. A razão pela qual caíram as suas máscaras, o porque de estarmos sendo testemunhas de um governo de caráter empresarial, não se deve a que essas empresas se sentiram mais poderosas que antes, pelo contrário, é porque chegaram a ter medo.

Além disso, a maioria dos norte-americanos não votou em Trump. Cerca de 40% não participou do pleito, ficou em casa, e entre os que votaram a clara maioria o fez a favor de Hillary Clinton. Ele ganhou graças a um sistema Ganhou graças a um sistema manhoso, viciado, tanto que podemos dizer que mesmo nesse sistema ele não ganhou. Foi Clinton que perdeu, junto com o establishment do Partido Democrata. Trump não teve maioria, mesmo com uma abrumadora comoção a seu favor. Ganhou porque Hillary deprimiu suas cifras, pela falta de entusiasmo de sua rival. A cúpula do Partido Democrata pensou que não era importante fazer campanha sobre melhoras tangíveis na vida das pessoas. Não tinham praticamente nada que a oferecer às pessoas cujas vidas foram devastadas pelos ataques do neoliberalismo. Acreditavam que podiam cavalgar sobre o medo a um governo de Trump, e isso não funcionou.

A boa notícia disso tudo é a seguinte: tudo isso torna Donald Trump incrivelmente vulnerável. Este sujeito que chegou ao poder contando as mentiras más absurdas e descaradas, mostrando-se como um defensor do trabalhador que finalmente chegaria ao poder, no lugar da influência empresarial de Washington, é a vidraça da vez. Uma parte da sua base eleitoral já mostra arrependimento, e esse grupo tende a crescer.

Alguma outra coisa pode nos beneficiar? Esta administração vai colocar todas as cartas na mesa de uma vez. Os informes falam numa projeção de orçamento que causará comoção e terror, baseado num corte de 10 bilhões de dólares em dez anos, passando a serra elétrica em tudo, nos programas contra a violência de gênero, nos incentivos às artes, nas pesquisas sobre energias renováveis, nas unidades de proteção policial de comunidades. Claro que eles pensam que essa estratégia de blitzkrieg vai nos destruir completamente. Mas podem se encontrar com uma surpresa. Pode ser esta a oportunidade de nos unirmos por uma causa em comum. Se serve como indicativo, o volume das manifestações de mulheres mostra que começamos bem.

Conformar robustas coalizões num momento de “política de igrejinhas” é um trabalho difícil. É preciso enfrentar histórias dolorosas antes de conseguir progressos. A cultura de financiamento das fundações e as disputas de ego dentro do ativismo tendem criar conflitos entre as pessoas e os movimentos, o que desestimula a colaboração. Porém, as dificuldades não podem dar lugar ao desespero. Citando um dito popular da esquerda francesa: “a hora pede otimismo, deixemos o pessimismo para tempos melhores”.

Pessoalmente, não consigo ter muito otimismo. Mas neste momento em que tudo está em jogo, podemos e devemos encontrar nossa mais firme determinação.

 

Fonte: El País/Carta Maior/Municipios Baianos

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