se-manifestar-agora-e-crime-pergunta-uma-mae“Estão indiciando os meninos por carregar lenços e vinagres. Alguém é preso por isso? Pelo amor de Deus, é preciso ter humanidade”, afirmou Rosana Cunha, mãe de Gabriel, detido pela Polícia Militar ontem (5), às 15h, no Centro Cultural São Paulo, na Rua Vergueiro. No total, 22 jovens foram detidos antes da manifestação da Avenida Paulista, que começou às 16h30. O ato reuniu 100 mil pessoas para reivindicar a saída de Michel Temer (PMDB) da presidência e a realização de novas eleições diretas.

“Meu filho tem 18 anos e estava indo para o ato, é o direito de todo cidadão. Ele passou no Centro Cultural para encontrar um amigo, mas o pessoal que foi preso não se conhecia, foram pegos de surpresa. Um menino estava na mesa fazendo trabalho de faculdade e foi preso”, disse Rosana em vídeo publicado pelo Esquerda Diário. Na tarde de hoje, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP) anunciou que os 16 maiores de idade detidos foram indiciados por associação criminosa e corrupção de menores. Ao final do ato, a PM contabilizou 26 presos.

Polícia indicia 16 detidos em protesto em SP por associação criminosa

“Eles ainda alegam que encontraram armas brancas nas mochilas. Mas apenas quatro deles estavam com mochilas, como eles iam levar armas para 22 pessoas? A maioria estava sem mochila, e na verdade, não tinha nada nas mochilas além de lenços e vinagre”, disse. A SSP informa em nota que foram encontradas câmeras, celulares, toucas e estilingues. Em contrapartida, movimentos sociais e advogados acusam a PM de plantar os objetos para incriminar os jovens.

“Estou chocada como todos os pais. Não estamos entendendo. Eu eduquei meus filhos para que eles tomem atitudes e sejam responsáveis. Então, o cidadão tem o direito de defender o que acredita. E não estamos podendo fazer isso. Como assim? Por quê?”, afirmou Rosana. “Minha única vontade é de chorar e gritar para que todos ouçam o que aconteceu com meu filho. Amanhã pode ser com qualquer um. Quer dizer que se manifestar agora é crime?”, disse emocionada.

A Frente Povo sem Medo, organização de movimentos sociais que vem convocado manifestações contra Temer e por eleições diretas, se manifestou ontem pelas redes sociais sobre as prisões. “A polícia prendeu de forma arbitrária 26 jovens sob acusação que ‘pretendiam praticar atos de violência’ É escandaloso. Vários deles são menores. Foram levados para o Deic e permanecem lá sem a possibilidade de contato com os pais e advogados (…) É fundamental uma ampla pressão para a libertação imediata deles.”

“A democracia desse país acabou de vez”, diz pai

Já se passaram mais de 24 horas desde que 26 jovens foram detidos pela Polícia Militar, antes do protesto “Fora Temer” deste domingo (4), em São Paulo, e até agora nenhum deles foi liberado. Depois de mais de 8 horas sem comunicação, detidos no Deic, os jovens só puderam falar com os pais, responsáveis e advogados depois da intervenção do ex-senador Eduardo Suplicy, do deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP) e do ex-secretário de Cultura Nabil Bonduki no local.

Os adolescentes maiores de idade foram encaminhados, na tarde de segunda-feira (5), para uma audiência de custódia no Fórum Criminal da Barra Funda e correm o risco de serem presos por “associação criminosa” e “corrupção de menores”. Eles foram detidos próximo ao Centro Cultural São Paulo, horas antes da manifestação. Pouco tempo depois, um grupo de 5 menores também foi detido na Paulista e encaminhado ao Deic.

Os delegados responsáveis por ouvir os detidos afirmaram que eles foram presos pois estariam planejando atos de vandalismo na manifestação. De acordo com os policiais, eles estariam portando pedras, informação que os jovens negam. De resto, tudo o que a polícia informa ter encontrado bate com as informações dos jovens: kits de primeiro socorros, máscaras de gás, bandanas, água e bolachas. Ainda há a informação de que um dos jovens estaria carregando uma barra de ferro. Este, porém, sequer mochila carregava e estava apenas estudando no Centro Cultural São Paulo – ele não ia para a manifestação.

À Fórum, o mecânico Antonio Carlos Cardia Roque, pai da estudante Janaina Marton Roque, uma das jovens presas, se mostrou indignado com a atitude da polícia. Para Antonio, “a democracia desse país acabou de vez”, já que as pessoas sequer mais têm o direito de se manifestar pacificamente.

“Acho que todos que estavam fazendo a manifestação estavam lá para exercer um direito deles. São pessoas honestas e estão indignadas. Quem está se manifestando, é por que é honesto, não ladrão. Agora você não tem mais nem esse direito”, afirmou, garantindo ainda que tem certeza que sua filha não planejava se envolver em qualquer tipo de ato de vandalismo.

“Eu concordo com manifestação, só que eu sou contra baderna, mas eu sei que ela não estava fazendo baderna, eu conheço a minha filha”, disse Antonio sobre Janaina, que é estudante de cinema.

Pais e responsáveis dos outros jovens detidos também mostraram indignação e, por meio de uma carta coletiva endereçada ao governador Geraldo Alckmin, expressam seu repúdio à conduta da polícia militar e a falta de informações. Os jovens passaram horas detidos sem qualquer tipo de contato com advogados ou responsáveis.

Confira a íntegra da carta.

Sr. Governador do Estado de São Paulo,

Tem esta o intuito de informar-lhe sobre os eventos ocorridos no último domingo, 4 de setembro, e estendido até a manhã desta segunda, por ocasião da detenção , para nós, mães e pais, descabida de 21 jovens, pela Polícia Militar do Estado de São Paulo, a qual os conduziu à Departamento Estadual de Investigações Criminal. A referida detenção teve vez entre 15h e 15h30, nas imediações do Centro Cultural Vergueiro – portanto fora do contexto das manifestações ocasionadas uma hora mais tarde, com início previsto longe dali.

Com emprego de força desmedida (dezenas de policiais militares portanto armamento de grosso calibre em pronto uso) abordaram e detiveram , “para averiguação”, nossos filhos , prontos sim a ir, legal e legitimamente, a um ato publico , imbuídos tão somente de suas convicções e espírito cívico.

Os que assinam esta carta espantam-se não só com a forma da detenção e sua alegação, mas, especialmente, com o destino que tiveram nossos filhos na ocasião. Por que encaminhar jovens que, em muitos dos casos, sequer se conheciam ao DEIC? Sem fundada suspeita , sem antecedentes, sem provas. Sem, como se verá, acesso ao delegado. Por que a torturante demora para os encaminhamentos? Por que a proibição à entrada de advogados , defensor e familiares, particularmente dos familiares dos adolescentes à delegacia? Por que às 19h, todos os celulares em posse dos nossos filhos pararam de funcionar , impossibilitando qualquer informação sobre o que lhes ocorria no interior da delegacia? Por que confiscaram-lhes os aparelhos? Que foi feito deles? Por que a orientação dada aos advogados , pelo delegado , de desligar seus próprios celulares? Por que somente após a chegada de três parlamentares por volta de uma da manhã tiveram acesso aos nossos filhos os advogados (presentes desde às 17h de domingo?

Até o momento desta carta (6h30), tudo o que sabemos nos foi informado pelos parlamentares e advogados: entrevista e assinatura dos termos (revogados graças a presença dos parlamentares) ; suposição de organização criminosa e aliciamento de menores – o que enseja o encaminhamento para audiência de de custódia no Fórum Criminal da Barra Funda, sem que ainda nos tenha sido informado o horário. Até o momento desta carta permanecemos há mais de 13 horas (!) absolutamente desorientados , ignorantes dos próximos passos , sem sequer o consolo de terem sido ouvidos , na presença dos advogados, nossos filhos.Nem mesmo sabemos ao certo quem se encontra detido ; nem mesmo muitos pais e outros familiares detém a informação do paradeiro de seus filhos, saídos ontem para manifestar-se. Alguns dos presentes, aliás, já se evadiram daqui, visto terem seus compromissos profissionais que honrar. Até o momento desta carta , tudo o que sabemos é que , sem dúvida, nem o defensor, nem qualquer um dos parlamentares presenciaram , segundo seu próprio relato , de viva voz, tantas anomalias em um caso como este.

Tudo o que sabemos é que , mesmo no período mais terrível de nossa história recente, detidos sempre tiveram garantido o acesso, ao menos , de seus advogados.

Até o momento desta carta, e, certamente , para muito além dele, tudo o que sabemos é que nossos filhos não são criminosos , mas , tão somente, cidadãos paulistas criados para crer no convívio pela diferença mesma das visões de mundo e pontões; diferenças sobre as quais se baseiam as nações de democracia, liberdade de expressão, livre transito e Estado Democrático de Direito.

Tudo com o que contamos, tudo o que esperamos de Vossa Excelência é, naturalmente , a reiteração desses valores e , a luz deles a remissão dos erros.

Cordialmente,

Nós, mães e pais abaixo assinados.

Alberto, Antonia, Carlos, Rosa, Vânia, Rosana, Miguel, Dalva.

MPL diz que PM “plantou” provas contra jovens detidos em SP

Familiares das 26 pessoas detidas na manifestação contra o presidente Michel Temer, esperam, apreensivos, por informações do lado de fora do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), na capital paulista, onde estão os jovens. Entre os detidos, estão dez adolescentes, que também passaram a noite na carceragem.

A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP) informou que os adultos foram indiciados por associação criminosa e corrupção de menores. Os adolescentes responderão por ato infracional. O protesto de ontem reuniu 100 mil pessoas, de acordo com organizadores, e terminou com a PM lançando bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e jatos de água nos manifestantes.

A mãe de uma das jovens, uma estudante de comunicação social de 19 anos, que preferiu não se identificar, disse que a filha foi detida de forma violenta em frente ao Centro Cultural São Paulo, na região do Paraíso, horas antes do início da manifestação. “Fiquei a noite toda aqui, pelo menos me deixaram ver a minha filha. Mas, por 8 horas, não nos davam informações, nem deixavam advogados entrarem”, disse.

A mãe da jovem detida disse à reportagem da Agência Brasil que ouviu na delegacia que as prisões ocorreram por crimes ligados à tática black bloc, investigados pelo Deic. A secretaria informou que os detidos foram encaminhados ao Deic, uma vez que o departamento apura a conduta de organizações criminosas.

Em nota, a secretaria informou que, no momento da prisão, os detidos estavam com “uma barra de ferro, câmeras, celulares, toucas, lenços, máscaras e diversos frascos contendo líquidos, que foram enviados à perícia para análise da substância. “Cinco dos jovens carregavam pedras e estilingues em mochilas. Um celular roubado também foi encontrado com um dos adolescentes”, diz a SSP. Na sua página, nas redes sociais, o Movimento Passe Livre (MPL) diz que os objetos foram “plantados” pelos policiais e que os jovens não são adeptos da tática black bloc.

Juno Guerreiro David, advogado de um dos detidos, confirmou que há suspeita por parte da polícia de que os jovens integrem a tática black block. Juno disse que a informação é equivocada, já que seu cliente, que prefere não se identificar, tinha intenção apenas de fotografar o trabalho dos socorristas durante a manifestação. O rapaz tem aproximadamente 20 anos, estuda e trabalha, defendeu o advogado.

Audiência de custódia

Os detidos serão encaminhados, após passarem por exame de corpo de delito, para audiência de custódia, em que se apresentam ao juiz para verificar a necessidade e adequação da continuidade da prisão. “Muito provavelmente, o juiz com um certo discernimento, deve colocar todos em liberdade, uma vez que não há comprovação de que eles lesaram, agrediram alguém, não depredaram patrimônio público”, disse.

O Passe Livre convocou para as 14 horas uma manifestação em frente ao Fórum da Barra Funda, zona oeste, onde serão levados os jovens para a audiência de custódia.

Jovens presos pela PM estão livres. Juiz diz que “vivemos dias tristes para a democracia”

“Vivemos dias tristes para nossa democracia. Triste do país que seus cidadãos precisam aguentar tudo de boca fechada”,  afirmou o juiz na decisão. O grupo ficou mais de 24 horas detido sob a acusação de “associação criminosa e corrupção de menores”.

O grupo de manifestantes detidos no domingo (4) no Centro Cultural São Paulo foi liberado no final da tarde desta segunda, 5, pouco depois de passarem por uma audiência de custódia no Fórum da Barra Funda, em São Paulo. Na decisão, o Juiz disse que “vivemos dias tristes para a democracia”.

“Vivemos dias tristes para nossa democracia. Triste do país que seus cidadãos precisam aguentar tudo de boca fechada”, afirmou na decisão.

O grupo foi detido e encaminhado ao DEIC (Departamento Estadual de Investigações Criminais). Segundo o Cel. Dimitrios Fiskatoris, responsável por toda operação, os jovens “declararam que estavam reunidos para praticar atos de desordem na cidade”.

“Eu tenho registro da declaração deles dizendo que faziam parte de um grupo que estava reunido para praticar atos de desordem na cidade e que eram parte de várias células que estavam espalhadas pela cidade”, disse durante uma coletiva de imprensa.

Segundo uma nota da Secretaria de Segurança Pública de SP, eles foram indiciados por “associação criminosa” e “corrupção de menores”.

No entanto, testemunhas disseram que os jovens carregavam máscaras, vinagre e kit de primeiros socorros. A Secretaria de Segurança de SP diz que eles estavam com “uma barra de ferro, câmeras, celulares, toucas, lenços, máscaras e diversos frascos contendo líquidos”.

Um dos detidos ainda acusa a polícia de plantar uma barra de ferro em uma mochila que ele sequer carregava. O estudante Felipe Paciullo Ribeiro estava estudando para um trabalho de faculdade na biblioteca do Centro Cultural São Paulo quando foi surpreendido pela polícia.

“Meu filho não é uma pessoa interagida com política, não sabe de nada. Nunca foi a uma passeata. Ele foi preso apenas porque estava passando por ali”, disse a mãe do garoto ao site Ponte Jornalismo.

Na delegacia, advogados acusaram a Polícia de inúmeros abusos como o impedimento de ingresso dos defensores, a proibição da comunicação entre os detidos e seus familiares e o desrespeito à comunicação entre advogado e detidos que foram obrigados a prestar depoimentos sem a presença dos advogados.

 

Fonte: Portal Fórum/Agencia Brasil/Municipios Baianos/Portalg14

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