Festival Internacional de Artes Cenica da Bahia Na foto: Foto: Alberto Coutinho/GOVBA
Festival Internacional de Artes Cenica da Bahia
Na foto:
Foto: Alberto Coutinho/GOVBA

Até o próximo domingo (30), o público soteropolitano ou quem está de passagem pela capital baiana pode usufruir gratuitamente da ampla programação do 9º Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia (Fiac). Além de 14 espetáculos de quatro estados brasileiros (BA, RJ, SP, MG) e também da Croácia, Chile e Uruguai, o evento, que é realizado em diversos espaços culturais da capital, abre espaço de participação por meio de críticas, oficinas e intercâmbios.

De acordo com a coordenadora de atividades formativas do FIAC, Rita Aquino, esta edição foi pensada com o intuito de estimular o engajamento político por meio das diferentes linguagens artísticas. “Não é só uma questão de política partidária, mas o entendimento da política de uma forma bastante ampla, desde as micropolíticas com as questões relacionadas ao corpo, as afirmações de gênero, identitárias, até o aspecto macro (político) relacionado a regimes, como nos organizamos na sociedade. A ideia do Fiac foi fomentar a participação como uma possível resposta à nossa forma de se organizar”.

Com o slogan ‘Meter mão’, a intenção, segundo Rita, é que o festival dialogue com os artistas, espectadores e com a cidade. “São seis dias bastante intensos de programação. Cinco coletivos de crítica de diferentes partes do País estão em Salvador produzindo ações que estimulem o pensamento, a construção de reflexão. Também temos, dentro do Fiac, a 3ª edição do Seminário Internacional de Curadoria e Mediação em Artes Cênicas, numa parceria super importante aqui com o Goethe-Institute”.

Além do Goethe-Institute/ICBA, no Corredor da Vitória, os espetáculos e atividades do Fiac são realizadas em outros espaços culturais da cidade como o Espaço Cultural Barroquinha, no Centro Histórico de Salvador (CHS) onde, neste sábado (29), às 10h, o Grupo de Teatro Hip Hop, de São Paulo, vai realizar a oficina Disco Aula – Uma História da Discotecagem.

Uma das oficinas que tem arrancado elogios dos participantes é Oficina de Carimbo, do coletivo de artes gráficas Sociedade da Prensa, que usa tinta, lápis, rolo de pintura, papel, entre outros itens, para estimular a criatividade via técnicas simples e de baixo custo de impressão. A fotógrafa Lara Perl participou da oficina na quarta-feira (26) e elogiou a possibilidade de um festival do porte do Fiac “dialogar com outros saberes”. Para ela, a oficina de carimbo é uma forma de “chegar, experimentar, brincar um pouquinho e aprender. Acho incrível esta troca com pessoas que já estão no mercado editorial”.

Festas

A lista completa de atividades, horários e locais está disponível no site do evento, o Fiac tem apoio do Governo do Estado, por meio das secretarias da Fazenda (Sefaz) e de Cultura (Secult). Há também uma programação intensa de festas que acontecem sempre à noite, após os espetáculos, promovidas em parcerias com outras iniciativas culturais de Salvador, como explica a coordenadora Rita Aquino. “Temos um conjunto de artistas e iniciativas não institucionais de promoção de atividades culturais. Estamos levando nossas festas para estes espaços como forma de dar visibilidade, valorizar, reconhecer e colocar as pessoas em contato. Teremos festa na Ocupação Coaty, no Casarão Barabadá, no Espaço do Oliveiras, no Santo Antônio Além do Carmo, e na Casa Preta”.

O superintendente de promoção cultural da Secult, Alexandre Simões, explicou que, pelo terceiro ano consecutivo, o apoio ao Fiac é via Fundo de Cultura da Bahia (FCBA), mantido pela Sefaz e Secult, por meio da renúncia fiscal (ICMS) de duas empresas, a Oi e a Coelba. “Uma das linhas de apoio é voltada a eventos calendarizados como o Fiac, que, envolve a articulação de diversos agentes de fora do País, inclusive, para o campo da experimentação e a circulação de diversos espetáculos premiados e consagrados. Isso fortalece a produção cultural no nosso estado, mas também renova as discussões e os debates acerca deste campo de produção e experimentação”.

Na opinião do secretário estadual de Cultura, Jorge Portugal, além de envolver diversas linguagens, o Fiac as atualiza para um público composto por pessoas que nunca tiveram contato com as artes cênicas e também por quem é assíduo frequentador de espetáculos. “Dizia um grande pensador que um pequeno gesto pode ser uma grande revolução. Para mim, o Fiac é a soma de grandes gestos. Portanto, de grandes revoluções”.

‘O Topo da Montanha’ é apresentada gratuitamente para 1,5 mil jovens

“Eu espero que o teatro os encante”, diz o ator Lázaro Ramos sobre estudantes que assistirão gratuitamente à peça ‘O Topo da Montanha’, neste sábado (29), às 17h, no Teatro Castro Alves (TCA), em Salvador. O público de 1.450 estudantes da rede pública estadual, atendidos por bases comunitárias de segurança e integrantes de movimentos sociais terá uma sessão apresentada especialmente para eles, que poderão ver de perto a produção estrelada pelo ator baiano Lázaro Ramos e pela atriz Taís Araújo. A montagem conta parte da história de Martin Luther King, homem símbolo da luta pelos direitos civis dos negros americanos.

A ação, que integra as atividades do Novembro Negro na Bahia, mês emblemático no calendário da luta racial no Brasil, tem o intuito de inspirar e promover a identificação do público jovem baiano com a história do homem que foi transformado em mito, mas que era uma pessoa como todas as outras, com grandes sonhos e incansável na busca de seus ideais. Para isso, a peça recria o último dia de vida do ativista e momentos que antecederam ao seu assassinato, através do diálogo entre Luther King e a camareira Camae, em seu primeiro dia de trabalho. Juntos, eles discutem temas relacionados ao racismo, à política, carregados de emoção e doses de humor.

Para o ator Lázaro Ramos, a identificação com o público é inevitável e é com muito orgulho que fará essa apresentação. “Esses jovens sou eu. A primeira peça de teatro que assisti foi com ingresso gratuito fornecido para minha escola pública, o Colégio Anísio Teixeira. Era uma montagem de Canudos na Concha Acústica e isso transformou a minha vida, minha visão de mundo, meu interesse por teatro e eu acho que minha transformação começou naquele momento. Pensando nisso, eu espero que o teatro os encante, porque além da temática social, essa é uma grande obra de teatro. Eu tenho certeza que os jovens, ao entrarem em contato com este texto, ficarão estimulados não só pelo tema mas também com o teatro em si, porque entendo que estamos formando novas plateias com essa apresentação”.

O secretário estadual de Cultura, Jorge Portugal, também aposta no espelho e inspiração que são os atores Lázaro e Taís Araújo representam para os jovens. “Lázaro é um desses meninos que saiu daqui para galgar o estrelato, mas não se esqueceu desse compromisso, e tudo aquilo que ele vivenciou, ele levou consigo. E trazer ‘O Topo da Montanha’ para apresentar para essa meninada que já está conectada com o mundo e com a contemporaneidade das questões negras através de outras linguagens, como o rap, o movimento hip hop, é ajudar a enriquecer ainda mais esse debate”.

Expectativa

Na expectativa para o espetáculo de sábado, a integrante da União dos Estudantes da Bahia (UEB), Elis Regina Sodré, imagina que ver, nos palcos, o herói da década de 60 também vai permitir fazer o paralelo com a atualidade. “Martin Luther King lutou pela igualdade e pelos negros e muito estudantes e jovens baianos ainda não conhecem a história dele de fato. O mais interessante é pensar que, por mais que a reivindicação dele tenha acontecido há décadas atrás, hoje ainda lutamos pelas mesmas coisas. O movimento negro ainda precisa disputar espaço na sociedade, a luta ainda não acabou, ela continua cotidianamente. O racismo existe, principalmente para os negros e moradores de periferia, isso faz parte da nossa realidade diariamente e precisamos continuar com o que Luther King fez no passado”, disse a estudante, que estará na plateia da sessão especial.

Já para a fundadora do Desabafo Social, Monique Evelin, que já teve a oportunidade de assistir à produção em outro estado, acha que a chegada à Bahia é também inspirador. “A peça tem um recorte racial muito forte, e se apresentar na capital mais negra do Brasil para estudantes de escolas públicas talvez represente para a plateia um dos primeiros contatos diretos com uma temática dessa. Isso pode ser um ‘start’ para que os jovens se engajem em movimentos sociais, mas não necessariamente isso, é muito de entender o seu lugar de fala. Passa um filme na cabeça, você começa a se perguntar muitas coisas, e a responsabilidade para os integrantes desses movimentos cresce ainda mais. O bastão está conosco agora”, falou Monique.

Já para o subsecretário estadual da Educação, Nildon Pitombo, essa é uma oportunidade única pra os jovens estudantes de 16 escolas da rede estadual que irão ao TCA neste sábado. “Pedimos aos professores de História que acompanharão os alunos ao teatro que discutam previamente com os alunos em sala de aula o tema, a história de vida de Martin Luther King. É importante que o jovem perceba que esse é um processo de luta da humanidade que ainda está em curso, e que, mais do que tudo, é a vontade de fazer com que possamos ver o outro de forma igual, eliminando as barreiras sociais que tem implicações com etnia, com cor da pele, e que ele coloca com muita simplicidade no discurso”.

 

Fonte: Ascom SecultBa/Municipios Baianos

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