Esta matéria é de 2013, mas resolvemos reproduzir para mostra que estamos em 2016 e as coisas continuam pior com relação ao assunto abordado.

Ladrões

Semana passada discutimos aqui no Tecnoblog como alguns veículos de mídia deixaram de abordar a carga tributária brasileira em suas páginas em matérias sobre o iPad. Deram a impressão que queriam apenas vender o tablet, e consequentemente, vender exemplares de suas respectivas revistas ou jornais digitais.

Gostaria de voltar ao assunto explicando por que tal discussão é importante. Costumamos colocar a culpa nos impostos pelo alto custo dos produtos industrializados, mas a questão dos impostos é bastante complexa, estratificada.

Tudo aqui custa muito mais caro por causa do chamado “custo Brasil”, termo que os economistas usam ao falar não apenas do quanto o consumidor paga por algum produto, mas também para explicar por que é tão complicado para empresas investirem em nosso país. Aliás, para muitos gringos, investir no Brasil não é fomentar a indústria, mas especular, já que os altos juros trazem ótimas perspectivas de lucro fácil e rápido para quem dispõe de capital para tanto. Mas isso é outra história…

A questão é: o que impede, por exemplo, a Apple de colocar uma fábrica aqui no país, a ponto do megaempresário Eike Batista conquistar a simpatia de milhares de nerds apenas visando essa possibilidade?

1. Impostos

Sim, cerca de 40% do valor final de um produto industrializado vai para o governo, enquanto nos Estados Unidos e China a bocada é de 20%. Até nossos vizinhos Argentinos pagam bem menos, cerca de 24%.

Entender a sopa de letrinhas tributária é um desafio! IPI, ICMS, Cofins, ISS, IOF, Cide e, talvez em breve outra vez, a CPMF (bate na madeira…). Em nenhum lugar do mundo as empresas quebram tanto a cabeça para se manterem dentro da legalidade fiscal, contratando profissionais de contabilidade que suam muito para encarar os percalços burocráticos e se manterem atualizados. Até eles não conseguem explicar aos clientes para onde vai o dinheiro de algo tão vago quanto o nome “contribuição social” sugere.

Não bastassem tantos impostos, ainda encaramos o efeito cascata. Por exemplo, ICMS incide sobre Cofins e PIS.

Mas o que nos deixa mais furiosos é não enxergarmos o retorno desse dinheiro em serviços públicos e infraestrutura, enquanto a corrupção corre solta. Não, nossa carga tributária não é justa. Não somos um país tão rico a ponto de justificar tamanha mordida. Nos EUA, um cidadão trabalha 9 horas para comprar um iPod Nano. Para comprar o mesmo produto no Brasil, o trabalhador precisa batalhar 7 dias.

2. Funcionário custa caro

Não precisamos chegar ao ponto de aderir à semi-escravidão, como a China, mas o que acontece no Brasil é um exagero. Manter um funcionário registrado em carteira custa outro salário para o empregador. Perguntem a qualquer empreendedor qual o maior desafio ao iniciar qualquer tipo de negócio. Isso dá margem para empresas espertonasque contratam estagiários para fazer serviço de office-boy, copeira, telefonista…

3. Infraestrutura precária

Energia aqui custa caro e ainda não chegou a todos os lugares. É por este motivo também que as montadoras já descartaram a possibilidade de produzir carros elétricos no país. Nossas usinas mal suportam a atual demanda.

O transporte é um caso à parte. Trata-se de contrassenso um país de dimensões continentais depender tanto do transporte rodoviário, o mais caro e instável de todos. As estradas em más condições tornam a profissão de caminhoneiro de altíssimo risco. O frete também encarece por causa do alto custo dos combustíveis e da manutenção dos caminhões, que sofrem com os buracos.

Quando não é buraco, é pedágio. A malha ferroviária está abandonada. E a aérea, bem… Se os aeroportos não estão dando conta nem de transportar gente, que dirá mercadorias…

4. Status

Mercado de luxo existe em todos os lugares do mundo, desde o tempo dos fenícios. Contudo, no Brasil de hoje, graças à brutal desigualdade social, o alto preço de um produto muitas vezes é a única razão para se adquiri-lo! Isso explica o fato do iPhoneaqui não ser uma ferramenta de comunicação e produtividade, e sim, “celular de rico”. Há quem compre um iPhone só para fazer ligações. Por que não comprar um celular mais apropriado só para falar? Porque, para o dito cujo, é preciso mostrar que ele pode ter um iPhone.

O preço não é alto. É irreal. Afinal de contas, por mais caro que seja, sempre haverá gente se estapeando para comprar certos produtos. Pode-se cobrar o quanto quiser e até se inventar “taxas” absurdas para ganhar um dinheiro limpo de impostos e comissões. Por exemplo, R$ 100 extras a título de “taxa de conveniência” pelo ingresso de um show.

5. Pirataria

Não é um fenômeno exclusivamente tupiniquim. Porém, mais uma vez, aqui ela ganha características únicas. Por exemplo, a profissão de sacoleiro, muambeiro, ou seja que termo for. Há quem viva só disso: os sites de leilão estão aí para provar. Nunca faltarão pessoas dispostas a ter um produto que custe três vezes menos que nas lojas locais.

Há consequências graves. A cultura da pirataria se enraizou tanto na gente que há quem prefira até piratear softwares de R$ 10. Pra que pagar, seja o quanto for, se tem de graça, não é mesmo?

Como mudar esse cenário e ver o país crescer?

Vocês se lembram quando o mercado de PCs no Brasil era dominado pelo mercado cinza? Profissionais de fonteira traziam peças de computador do Paraguai e montavam aqui as máquinas para revendê-las… Foi uma política de renúncia fiscal que incentivou diversas empresas a fabricar computadores aqui, tornando possível para muita gente comprar PCs de marca com direito a nota e garantia nacional.

Sinceramente, acredito que a desejada inclusão digital se dará quando o mesmo for feito com os serviços de telecomunicações. A banda larga começará a chegar para todos de maneira instantânea, no dia seguinte à canetada. Sem a necessidade de conchavos políticos e cabidões de emprego.

Fonte: tecnoblog.net

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