‘Folha’ publicou diálogo com Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro.
Presidente do Senado diz que presos deveriam ser impedidos de delatar.

RenanGravações obtidas pelo jornal “Folha de S.Paulo” mostram o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), dizendo ao ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado que apoia mudar a lei que trata da delação premiada de maneira a evitar que preso colabore com as investigações,  que é o principal procedimento usado na Operação Lava Jato.

Os diálogos foram gravados por Machado a partir de março, mas a data da conversa com Renan não foi revelada. Ambos são alvos da investigação que apura os desvios na Petrobras. O presidente do Senado é investigado em sete inquéritos que tramitam no Supremo Tribunal Federal relativos à Lava Jato.

Sérgio Machado fez acordo de delação premiada com a força-tarefa da Lava-Jato. A homologação da delação pelo ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal, deve ocorrer nos próximos dias.

Ao jornal, Renan Calheiros afirmou que “os diálogos não revelam, não indicam, nem sugerem qualquer tentativa de interferir na Lava Jato ou soluções anônamalas”. “E não seria o caso, porque nada vai interferir nas investigações.”

Na última segunda-feira (21), a divulgação de um áudio com uma conversa entre o ex-presidente da Transpetro e Romero Jucá(PMDB-RR) causou a exoneração do então ministro do Planejamento de Michel Temer.

Indicado pelo PMDB, Sérgio Machado presidiu a Transpetro entre 2003 e 2015. Ele se desligou da estatal do petróleo após denúncias de envolvimento no esquema de corrupção investigado na Lava Jato.

Machado foi citado nas delações premiadas do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e do senador cassado Delcício do Amaral (sem partido-MS). O Ministério Público Federal apurou que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), teria recebido propina de contratos da Transpetro na época em que a subsidiária era presidida por Machado.

No diálogo divulgado pela “Folha de S.Paulo”, Sérgio Machado sugere “um pacto” que seria “passar uma borracha no Brasil” e Renan responde: “antes de passar a borracha, precisa fazer três coisas, que alguns do Supremo [inaudível] fazer. Primeiro, não pode fazer delação premiada preso. Primeira coisa. Porque aí você regulamenta a delação”.

Sérgio Machado afirma ainda a Renan que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, estaria “mandando recado” e “querendo o seduzir” para aceitar um acordo de delação premiada. A mudança na lei de delação, mencionada por Renan, poderia beneficiar Machado caso efetivada.

Na conversa, Renan também critica a decisão do STF tomada ano passado, que mantém uma pessoa presa após a condenação em 2ª instância. Ainda segundo a conversa divulgada pelo jornal, o senador fala também em negociar a transição com integrantes do Supremo, mas o áudio não permite ter uma precisão de como Renan pretende fazer isso.

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Machado questiona Renan sobre o motivo de Dilma “não negociar” com membros do Supremo. O senador responde: “porque todos estão putos com ela”.

A assessoria do STF afirmou à “Folha” que o presidente do tribunal, Ricardo Lewandovski, “jamais manteve conversas sobre suposta ‘transição’ ou ‘mudanças na legislação penal’ com as pessoas citadas”.

Na conversa divulgada, Renan afirma ainda que todos os políticos “estão com medo” da Lava Jato. Ele cita Aécio Neves, senador e presidente do PSDB. “Aécio está com medo. [me procurou] ‘Renan, queria que você visse para mim esse negócio do Delcídio, se tem mais alguma coisa'”, relatou Renan, em referência à delação de Delcídio do Amaral, que citava o senador tucano.

À “Folha de S. Paulo”, Renan Calheiros se desculpou pela menção a Aécio, dizendo que se referia a um contato do senador que expressava indignação, e não medo, com a citação de Delcídio. A Executiva Nacional do PSDB informou  ao jornal que Aécio manifestou a Renan apenas “a sua indignação com as falsas citações feitas a seu nome” e disse que vai acionar na Justiça Sérgio Machado, afirmandou ser  “inaceitável essa reiterada tentativa de acusar sem provas”.

Renan afirma ainda que uma delação da empreiteira Odebrecht “vai mostrar as contas”, segundo o jornal, uma referência à campanha eleitoral de Dilma. Machado assegura que “não escapa ninguém de nenhum partido”. “Do Congresso, se sobrar cinco ou seis, é muito. Governador, nenhum.”

O jornal relata ainda que em outro trecho da conversa, o presidente do Senador mostra desconforto em saber pelo senador Jader Barbalho (PMDB-PA) que o presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), esteve com o presidente em exercício Michel Temer em março, antes do peemedebista assumir a Presidência interinamente.

Nos diálogos, Renan e Machado citam também sobre contatos do senador e de Dilma com a mídia, citando o diretor de redação da “Folha de S. Paulo”, Otavio Frias Filho, e o vice-presidente Institucional e Editorial do Grupo Globo, João Roberto Marinho. Frias teria reconhecido “exageros” na cobertura da Lava Jato, e Marinho teria afirmado a Dilma que havia um “efeito manada” contra seu governo.

Do G1, em São Paulo

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