Disputa Temer X Renan mostra racha na base aliadaEles começaram o ano de 2016 estremecidos, chegaram a travar uma disputa interna pelo comando do PMDB, voltaram a se unir e, desde então, vivem sendo alvo de notícias sobre articulações de um contra o outro. Mas como as divergências e manobras em separado descobertas entre os presidentes da República, Michel Temer, e do Congresso, Renan Calheiros (PMDB-AL), passaram a ser mais fortes, políticos da oposição e base aliada se perguntam, agora, até que ponto o grupo que chegou ao poder após o impeachment de Dilma Rousseff está realmente unido e até que ponto está desarticulado.

E mais: tentam descobrir qual o tamanho real da participação dos integrantes do PSDB nisso tudo. Esta é a principal discussão que deve monopolizar reuniões de bancadas e conversas de bastidores na Câmara e no Senado, a partir desta semana.

Em primeiro lugar, porque a situação de Renan não está fácil depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) o transformou em réu em uma ação penal, na última semana, e por ter acumuladas, além deste processo, outras 11 investigações com pedidos para abertura de processos contra ele. Em segundo lugar, devido ao anúncio escancarado feito pelo presidente Michel Temer no jornal O Globo confirmando que recebeu um pedido da presidenta do STF, ministra Cármen Lúcia, para que atuasse como interlocutor junto a Renan no sentido de fazer com que o projeto que criminaliza abuso de autoridade tivesse votação adiada no senado.

O senador não aceitou recuar. O presidente da República, com o argumento de que “não faz parte do seu temperamento” interferir de forma mais intensa junto ao Congresso, ficou quieto num primeiro momento, para depois divulgar tudo quando as manifestações que tomaram as ruas do país pediram, justamente, mais apoio nas medidas de combate à corrupção e transformaram Renan Calheiros num dos alvos principais dos protestos.

O presidente do Congresso ficou de se reunir com os líderes partidários do Senado na manhã desta terça-feira (6) para definir os itens prioritários da pauta da semana. Ele ainda não se pronunciou a respeito, mas saiu de Brasília na sexta-feira anunciando que votaria o projeto sobre abuso de autoridade rapidamente. Aliados já falam em tentar demovê-lo da ideia e consideram que ficou clara uma articulação de Temer no sentido de colocar Renan no epicentro da fogueira. E, ao colocá-lo nessa fogueira, tentar se livrar um pouco da crise política dos últimos dias.

“É uma briga de gigantes, mas Temer precisa mostrar toda a sua habilidade política para sair vitorioso se quiser partir para o confronto, porque Renan tem talento: demora para se exasperar, mede bem seus atos, tem carisma junto aos parlamentares e, apesar do baque com a decisão do STF, não se pode dizer que seja um leão caído”, avaliou um senador peemedebista ligado ao presidente do Senado.

Os motivos de Temer para encontrar um novo foco para as manchetes dos jornais passaram pela saída do então secretário de governo, ministro Geddel Vieira Lima, do cargo, por ter tentado usar a função que ocupava para proveito privado. Também, pelo pedido de impeachment contra ele (Temer) protocolado pelo Psol por ter atuado em favor de Geddel, por outros pedidos que devem ser protocolados nos próximos dias com o mesmo objetivo e, para completar, os comunicados de entidades do mercado financeiro de que não estão satisfeitas com a atuação do Executivo nas medidas para equilibrar a economia do país.

Medidas macroeconômicas

O recado passado por vários empresários no final de semana foi de que consideraram pequena a última  redução das taxas de juros e querem medidas mais fortes, daqui por diante. Temer promete divulgar um pacote com dez medidas macroeconômicas nos próximos dias, até mesmo como forma de preservar o seu ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que teve a cabeça colocada a prêmio por nove parlamentares.

Desses, pediram a saída de Meirelles, além do próprio Renan Calheiros, o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara, e os senadores Romero Jucá (PMDB-RR), Eunício Oliveira (PMDB-CE), Aécio Neves (PSDB-MG), Tasso Jereissati (PSDB-CE), José Aníbal (PSDB-SP), Ricardo Ferraço (PSDB-ES) e Armando Monteiro (PTB-PE).

Um dos fatores considerados determinantes para levar a esse clima de animosidade foi a sugestão feita por Renan, logo após a saída de Geddel e sem ter comunicado ao Palácio do Planalto, que a vaga deveria ser ocupada por um político do PSDB. Embora nos últimos dias tenha sido maior o movimento de parlamentares tucanos para almoços e jantares com o presidente da República no Palácio do Jaburu, ainda não ficou totalmente esclarecido se houve algo de caráter partidário nas declarações feitas pelo ex-ministro da Cultura Marcelo Calero, que é ligado a nomes do PSDB e já integrou a sigla, a Geddel Vieira Lima.

Até porque Calero deu depoimento sobre o caso à Polícia Federal. O vazamento de suas palavras, poucas horas depois, causou grande incômodo no Palácio do Planalto e aumentou os pedidos pela saída do titular do Ministério da Justiça, Alexandre de Moraes, que também é do PSDB. Oficialmente, Temer descartou a saída de Moraes e minimizou qualquer atrito. Em reservado, segundo pessoas próximas, demonstrou contrariedade.

“O que existe é muita teoria da conspiração nisso tudo. O momento é de pensarmos no país, não de nos esmiuçarmos em itens pequenos que aumentam a crise. O governo segue unido e com o apoio dos que se reuniram para formá-lo desde que o presidente Michel Temer assumiu”, justificou-se o atual líder do governo no Congresso, Romero Jucá, tentando desfazer qualquer mal estar.

Renan, entretanto, disse que o presidente da República “deve considerar ampliar o papel do PSDB no governo”. “Não podemos apequenar essa discussão. Prefiro um governo com influência pelo PSDB do que influenciado pelo Eduardo Cunha. Se fizermos isso, teremos mais condições de cuidar do ajuste e priorizar uma pauta que seja eficaz na retomada do crescimento da economia”, afirmou.

Os tucanos pouco comentaram a respeito. Fontes do Palácio do Planalto destacaram que a declaração não foi bem quista. E enquanto os oposicionistas falam em “golpe do golpe”, “período cada vez mais difícil para o governo”, “articulação do PSDB para chegar à presidência nos próximos meses”, pouco se comenta sobre a situação de fato de Renan Calheiros, elogiado como “homem de consensos” ou como “político carismático” até por nomes como o líder das minorias, Lindbergh Farias (PT-RJ). “Renan é muito envolvente, não há como negar”, afirmou ele durante o período de votação do impeachment de Dilma Rousseff.

Ajuda a dois lados

Enquanto todos estes itens tendem a ser melhor avaliados e até levar a redefinições na base aliada, parlamentares da situação e da oposição costumam lembrar de um fator considerado relevante para levar Temer ao poder e, ao mesmo tempo, para agradar aos petistas. O de que foi Renan Calheiros quem atuou, e votou, pelo impeachment da ex-presidenta e também, no mesmo dia, interferiu com toda a força de que dispunha para aprovar a emenda que manteve os direitos políticos de Dilma.

Agora, enquanto atua nessa guerra de bastidores com Temer e tenta fragilizar autoridades que trabalham nas investigações sobre corrupção de políticos, Renan continua sob o comando da Casa que tem a missão de votar as medidas de ajuste fiscal tão desejadas pelo Executivo.

Para o líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE), tudo o que está sendo observado é fruto do desequilíbrio do governo. Costa disse ver pouca possibilidade de Temer conseguir durar no cargo até 2018. “O fato de ele não ter a legitimidade das urnas, somado à incompetência de sua equipe econômica, além dos seguidos escândalos da gestão peemedebista, ameaçam a sua permanência. O que estamos vendo é um governo que tenta se equilibrar num pé só e vê sua base se corroer. É um governo que desde que assumiu, estava fadado a fracassar”, disse.

Da mesma forma, o deputado Paulo Pimenta (PT-RS) é da opinião que, além da perda de apoio na base parlamentar, o governo se vê “mergulhado” em denúncias de corrupção, e ainda não consegue oferecer o que chamou de “resposta satisfatória do ponto de vista da política econômica”.

“É um governo que perde base, aprofunda o esquema de corrupção e que não tem resposta econômica. Mas vai ser empurrado até dezembro, para gerar o ‘golpe no golpe’ a partir de janeiro. Está fadado a um fim próximo e só não foi derrubado ainda porque há articulações poderosas por trás”, afirmou. Segundo Pimenta, “se hoje os segmentos interessados quisessem se movimentar, já teriam voto no Congresso para cassar o Temer”.

Franklin Martins vê Temer “virar mingau” e risco a 2018 por falta de nome forte à direita

m ótima entrevista ao site Sul 21, o ex-secretário de Comunicação do Governo Lula, Franklin Martins,diz que o golpe que derrubou Dilma Rousseff “foi um negócio de ocasião” feito por setores que, além de não terem legitimidade, também não conseguem ter unidade política”:

– O que temos visto nos últimos dias é o governo Temer virando um mingau. Esse governo não tem qualquer possibilidade de comandar o país . É uma aberração. Gilmar Mendes e Sérgio Moro estão juntos na Lava Jato, mas o Moro acha que é preciso acabar com o Estado de Direito. Já o Gilmar Mendes não quer que o Estado de Direito acabe para a turma dele. Enquanto for só para o PT, Gilmar Mendes topa, mas ele sabe que isso pode pegar o PMDB, o PSDB, o PP, o DEM e assim por diante.(…) o plano A deles é manter o Temer, pois é sempre ruim fazer uma substituição destas, mas o Temer pode não se aguentar também. Mas quem vier depois dele também não vai aguentar, pois a política de regressão que eles estão impondo ao país é um desastre completo que está liquidando a economia brasileira.

Os novos detentores do poder, diz ele, não estão conseguindo nem a retomada da economia nem a volta de níveis democráticos de convívio, desarmando o clima de tesão a que o país foi levado até o impeachment:

– Nós estamos caminhando para uma convulsão social no país. E quem paga o preço quando ocorre uma convulsão social é o povo, que perde direitos, perde possibilidades, oportunidades e que é sempre reprimido. Então, nós estamos vivendo uma situação dramática por absoluta irresponsabilidade das forças conservadoras no Brasil que, diante de uma construção histórica de expectativas de mudanças, viu uma oportunidade, potencializada pelos nossos erros, derrubou o governo eleito e agora não tem condições de estabilizar esse processo(…)

Franklin, porém, acha que há em curso um processo em que “as pessoas começam a perceber o que está acontecendo: fim das políticas sociais, precarização das relações de trabalho, perspectiva de aumento do tempo para aposentadoria, entre outras coisas. ” E que a verem que  a crise econômica “não é uma herança maldita do governo da Dilma, mas sim que está sendo produzida por essa política regressiva do governo Temer”.

O ex-auxiliar de Lula vê o processo eleitoral de 2018 em risco, justamente pela falta de uma opção viável à direita e que a esquerda está desafiada, antes de tudo, a reunir forças para impor o cumprimento do calendário constitucional e assegurar as eleições de 2018:

– Olho para a frente e pergunto: que nomes eles têm para 2018, se é que eles virão para a disputa? Aécio? Não vai a lugar nenhum. Serra? Também não vai a lugar nenhum. O próprio Alckmin, ao meu ver, não sai muito de São Paulo. O Moro não segura três meses de campanha. É de uma mediocridade total. Na verdade, eles não têm um nome e, isso se deve ao fato de que eles não têm um projeto para o país. Neste processo do golpe, eles destruíram a política e inclusive os nomes deles. Quem são as grandes referências que ainda estão aí? Há o Lula que, ao meu ver, crescerá cada vez mais. Além dele, há a Marina, em decadência, que pode crescer no discurso da não política. Tem o Ciro que pode crescer e o Bolsonaro, que pode crescer, mas não ao ponto de ganhar uma eleição. Mas eles irão para uma eleição sabendo que perderão? Acho que, de moto próprio, não irão.

Temer anda na corda bamba entre trair aliados e desapontar a ultradireita

Ainda atordoado pelas manifestações deste domingo, realizadas pelas mesmas pessoas que exigiram a saída da presidenta eleita Dilma Rousseff, o presidente de facto, Michel Temer, vê-se obrigado a vetar os artigos no pacote anticorrupção por seus aliados, no Congresso. Se o fizer, trai seu objetivo primário, que é o de “estancar essa sangria” da Lava Jato, como definiu seu líder no Congresso, Romero Jucá (PMDB-RR).

Pressionado por protestos também contra os péssimos resultados na economia, Temer já tenta se desvencilhar de sua missão principal. Mas corre o risco de ser derrubado pelos mesmos parlamentares que o apoiaram. “Se não sancionar, cai”, disse um deputado que não quis se identificar à reportagem do Correio do Brasil. Ele se referia às chamadas “10 medidas contra a corrupção”.

Verde e amarelo

Michel Temer já frustrou os agentes econômicos pró-impeachment, ao aprofundar a recessão. Agora, tem o condão de atrair a ira dos parlamentares que integram sua base de sustentação.

Nas manifestações deste domingo, as pessoas foram de verde e amarelo e levantaram cartazes em apoio à Lava Jato e ao juiz Sérgio Moro e pediram Fora Renan e Rodrigo Maia:

Jucá deixou claro que era preciso afastar Dilma Rousseff, eleita com 54 milhões de votos. Pensava que Temer pudesse salvar os mais de 200 políticos que serão afetados pelas delações da Lava Jato.

Na semana passada, esse trabalhou para “estancar a sangria” avançou com a ação do Congresso para conter o ímpeto da Lava Jato. No entanto, as manifestações de ontem emparedaram Temer, que disse a jornalistas que não ter nada a ver com esse esforço..

Impeachment

Não bastasse o resultado catastrófico das manifestações, os partidos da oposição e movimentos sociais vão protocolar, nesta terça-feira, um pedido de impeachment contra Michel Temer. O documento tem poucas chances de seguir adiante, mas se transforma em mais um instrumento de pressão contra Temer.

O pedido será assinado por PT, PCdoB, PDT e PSOL, além da União Nacional dos Estudantes (UNE), a Central Única dos Trabalhadores (CUT). O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), entre outros, também são signatários.

Este é o segundo pedido de impeachment contra Temer após o escândalo que culminou na demissão de Geddel Vieira Lima. Os fatos demonstram que não só o ex-ministro, mas também o presidente pressionaram o ex-ministro da Cultura Marcelo Calero. Geddel queria liberar uma obra que estava embargada em Salvador, onde Geddel possui um imóvel.

O pedido reforça o argumento já protocolado pelo PSOL, de que Temer praticou crime de responsabilidade.

— Há consenso de que há crime de responsabilidade e de que o pedido de impeachment é a peça concreta que cabe neste momento — comentou a líder da oposição na Câmara, Jandira Feghali (PCdoB-RJ).

 

 

Fonte: RBA/Tijolaço/Correio do Brasil/Municipios Baianos

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