seis-perguntas-que-temer-deveria-responderCom base nas informações oficiais do Palácio do Planalto, da Advocacia-Geral da União, das declarações dos dois ministros envolvidos no escândalo do apartamento de Geddel Vieira Lima e no depoimento formal prestado à Polícia Federal pelo ex-ministro da Cultura Marcelo Calero, muitas perguntas precisam ser feitas pela sociedade.

> Aqui vão algumas:

1)      Por que o presidente da República, Michel Temer, com sua agenda atribulada e em meio a uma das mais profundas crises econômicas e políticas do país, convocou duas vezes o seu então ministro da Cultura, Marcelo Calero, para saber as razões do embargo do Instituto do Patrimônio Histórico Nacional à construção de um prédio residencial em Salvador, onde outro ministro, Geddel Vieira Lima, tinha comprado apartamento?

2)      Por que Temer, um jurista, procurador aposentado do maior estado do país, ex-presidente da Câmara duas vezes, aceitou a pressão de Geddel para e tentou “arbitrar o conflito” entre o interesse privado do seu ministro favorito e uma decisão técnica de um órgão federal, o Iphan, que proibiu a construção de um prédio em área tombada pelo patrimônio histórico nacional?

3)      Por que um terceiro ministro, o chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, também pressionou o ex-ministro da Cultura a encontrar uma solução não técnica para que o edifício onde Geddel diz ter comprado uma unidade pudesse ser construído?

4)      Por que a Advocacia-Geral da União – defensora dos interesses do Estado, e não de governos – teria que arbitrar o tal conflito entre os negócios privados de Geddel e as normas técnicas do Iphan, quase aritméticas e previstas em lei federal?

5)      Por que o sub-chefe da Casa Civil, Gustavo do Vale Rocha (ex-advogado do notório Eduardo Cunha), pressionou o então ministro Calero para que o processo do Iphan fosse enviado à AGU, para que a ministra Grace Maria Fernandes Mendonça encontrasse uma solução heterodoxa e driblasse o embargo à construção?

O presidente da República é o gestor de um empreendimento chamado Brasil, que tem um PIB de U$ 2,2 trilhões, mais de 100 empresas estatais, bancos públicos, inúmeras autarquias, fundações e uma administração direta com mais de 2 milhões de servidores públicos responsáveis pela prestação de serviços a mais de 200 milhões de pessoas.

Também está sob a responsabilidade do presidente as relações internacionais, porque é o chefe da nação. Sob sua alçada estão as decisões administrativas que envolvem o patrimônio do país, sua riqueza agrícola, seu potencial energético e ambiental, a política industrial e os verdadeiros conflitos entre os auxiliares sobre o modelo de gestão pública.

Após o impeachment de Dilma Rousseff, o presidente está encarregado de organizar novamente as contas públicas e resgatar a credibilidade do governo, com incentivos a investimentos nacionais e internacionais. Precisa trabalhar duro para aprovar medidas que possibilitem essa reorganização do Estado e a contenção do crescimento da dívida interna. E, além de tudo isso, conseguir maioria parlamentar no Congresso para continuar governando.

6)      Como alguém com tantas atribuições arrumou tempo na agenda para tratar de um assunto privado de um dos seus auxiliares do tamanho de um apartamento de R$ 2,6 milhões?

Banquete indigesto: almoço de Temer, FHC e Aécio

Na linguagem da medicina, os sinais vitais do governo mostram que Temer “precisa de oxigênio suplementar”. De fato, o PSDB sente que pode não ter muito tempo para influenciar Temer e os congressistas a passar a acelerar a aplicação dos principais ajustes. Calero foi candidato a deputado federal pelo Rio de Janeiro em 2010, pelo PSDB. Não aparenta estar em íntima ligação com a cúpula do tucanato, nem mineira, nem paulista (a despeito de constituir um movimento que agrada mais Alckmin que Aécio, que repreendeu Calero por ter gravado as conversas que provariam o papel de Temer em pressioná-lo a favor de Geddel). Supondo que o movimento de Calero não correu entre as balizas da chefia do PSDB, as declarações de hoje parecem misturar preocupação e um novo sentido de urgência ao governo golpista.

Ao chegarem no evento realizado pelo partido na Câmara dos Deputados, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, ressaltaram que a saída de Geddel é uma “prerrogativa de Temer” e que o momento é de se focar na atual crise econômica e não “nas pequenas coisas”.

“Os ministros caem e outros vêm. O importante é não perder o rumo. Diante da circunstância brasileira, depois do impeachment precisamos atravessar o rio. Isso é uma ponte, pode ser uma frágil, uma pinguela, mas é o que tem. Se você não tiver a ponte, você cai no rio” ressaltou FHC. Ao falar da atual crise política, FHC focou suas críticas às gestões anteriores do PT na área econômica.

Bater em carta fora do baralho não fará muito para reverter a opinião do empresariado nacional, visivelmente insatisfeita com Temer e pouco propícia a ceder ao argumento do estado deixado pelo PT nas contas públicas.

As eleições municipais passaram e os ataques contra os trabalhadores que a Câmara infestada de corruptos ilegítimos e o governo estão aplicando como podem não soam suficientes à patronal. Em sua coluna, Miriam Leitão d’O Globo, tão solícita aos golpistas, perdeu a paciência e enumerou a lista de “erros” do presidente, desde a demora em destituir Geddel, assim como o atraso nos ataques, que estaria servindo apenas para “aumentar a coalizão da resistência” contra, por exemplo, a reforma da previdência.

Como efeito do triunfo de Trump, o dólar valorizado já torna a dívida das empresas mais cara; as taxas de juros maiores incrementam o problema para as empresas com dívidas dolarizadas. Isso fez com que as empresas nacionais mostrassem um descontentamento uníssono com a “lentidão” dos ajustes de Temer depois do triunfo de Trump. Boa parte da percepção dessa “lentidão” se refere às dificuldades de passar toda a austeridade com políticos tão questionados (tanto que o discurso da “antipolítica” foi avassalador nas eleições). É muito provável que a eleição de Trump, com as perspectivas imediatas negativas para a recuperação, torne ainda mais amarga a relação do empresariado com a base de Temer – e com o próprio Temer – o que poderia se converter num apoio mais claro ao avanço da Lava Jato.

O PSDB é talvez o partido burguês mais sensível aos reclamos dos capitalistas nacionais e estrangeiros e, como um galo do tempo, mudou de cor com a tormenta econômica que se aproxima, e também com o perigo de que o movimento “cansei” da patronal coloque no cadafalso seus políticos, e em especial Aécio Neves, figura permanente nas delações da reacionária Lava Jato.

Logo após as declarações do ex-presidente, o governador Geraldo Alckmin chegou ao evento e adotou o mesmo tom utilizado pelos demais integrantes da cúpula do PSDB, minimizando a saída e rugindo pelas contrarreformas. “Essa é uma decisão do presidente da República. […] O governo conta com apoio em todas as medidas de interesse do povo brasileiro. Agora é avançar nas reformas. Agenda brasileira está repleta de urgências”.

Nem FHC, nem Aécio, nem mesmo Alckmin, com seus distintos interesses, conseguem esconder que a capacidade de aplicar os ajustes, o mais rápido possível, fica mais debilitada com esta nova crise. A irritação da patronal – que de julho a setembro viu seu faturamento cair 3%, a maior taxa desde 2012 – é a senha para que a Lava Jato siga um curso mais próximo ao da Operação Mãos Limpas na Itália, que acabou com os maiores partidos do regime político italiano (ainda que mantendo a corrupção e impunidade e ajudado a erguer Berlusconi).

Apesar de Sérgio Moro ter poupado religiosamente todo e qualquer tucano dos inumeráveis esquemas de corrupção, nenhum dos três tucanos presentes ao almoço tem dúvidas de que estão envolvidos na lista da Odebrecht e de outras empreiteiras.

O caminho para construir uma esquerda revolucionária que aproveite o espaço aberto pelo fracasso da experiência conciliadora do PT existe. O ceticismo da “esquerda Lava Jato” como o MES/PSOL de Luciana Genro ou o PSTU levam a acreditar que a melhor forma de superar o PT é com o autoritarismo reacionário de Sérgio Moro e do Judiciário. A classe trabalhadora precisa se converter num sujeito político hegemônico nesta crise, e isso passa por liderar com seu programa o questionamento a todo o regime político burguês. Uma nova Constituinte, Livre e Soberana, que coloque abaixo a Carta de 1988 – que os golpistas já modificam a seu favor – e questione toda a casta que administra essa democracia dos ricos, é a ponte que pode fortalecer a intervenção decisiva dos trabalhadores na política, e rumar para um verdadeiro governo dos trabalhadores de ruptura com o capitalismo, e não de reforma e relegitimação dele, como busca a Lava Jato.

 

Fonte: Congresso em Foco/Esquerda Diário//Municipios Baianos

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