a charge das As Olimpíadas o zika e a farsa na imprensa nacionalA epidemia do zika já contabiliza 1.638 casos confirmados de bebês com microcefalia como provável resultado da infecção pelo vírus e mais 3.061 bebês sob investigação. Foram confirmados 87 óbitos fetais ou neonatais por microcefalia e/ou alteração no sistema nervoso central em função do zika e 184 casos seguem sob investigação.

O ministro da Saúde interino foi à TV dizer que estava preparando uma ação para proteger os cidadãos brasileiros e estrangeiros de uma infecção pelo vírus. Sob os holofotes das Olimpíadas 2016 e para acalmar os estrangeiros, Ricardo Barros se reuniu com os embaixadores de todos os países que contariam com delegações de atletas no Rio.

Em junho, Barros anunciou o investimento de R$ 64 milhões para combater o zika durante as Olimpíadas. Contou aos correspondentes estrangeiros que pretendia comprar testes rápidos que pudessem ser feitos durante os Jogos e repelentes para as delegações – para as grávidas de baixa renda brasileiras também, acrescentou.

A promessa de distribuir insumos básicos para proteção das grávidas mais pobres é, entretanto, antiga, indo dos anticoncepcionais e camisinhas para não-engravidar ou não contrair a infecção do companheiro aos tão falados repelentes. Em dezembro de 2015, o governo já havia declarado que negociava a produção de repelentes com o exército brasileiro. Em janeiro deste ano, a imprensa também repercutiu o anúncio de que o governo negociava com a indústria de higiene e limpeza a compra dos tais repelentes para as beneficiárias do Bolsa Família.

Em abril, Dilma Rousseff assinou um decreto que instituiu o programa de prevenção e proteção individual de gestantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica contra o Aedes aegypti. Em julho, o Senado aprovou uma Medida Provisória que liberou R$ 420 milhões para ações de combate à microcefalia. Desse total, R$ 300 milhões seriam direcionados à compra de repelentes para grávidas do Bolsa Família.

Acontece que, já em novembro, a alteração do padrão de ocorrências de microcefalias no País levou o Brasil a decretar Emergência em Saúde Pública de Situação Nacional. Tal estado, segundo a Lei 8.666/1993, dá ao governo autorização para comprar insumos que assegurem a saúde dos cidadãos sem licitação. A mesma medida foi utilizada, por exemplo, para contratar serviços e comprar equipamentos sem licitação à época da Copa do Mundo de 2014.

Mas ninguém da imprensa lembrou do ocorrido e pensou em questionar o governo brasileiro sobre a não necessidade de uma medida provisória ou um decreto para que a compra de repelentes para as mulheres carentes deixasse de ser um discurso e se efetivasse na prática, rapidamente. Ficaram, todos os veículos, na repercussão das declarações de boas intenções das fontes oficiais.

Repelentes nas Olimpíadas

Chegamos a agosto – portanto, dez meses após instaurado o estado de emergência em saúde pública – e a assessoria de imprensa da Secretaria de Saúde de Pernambuco (um dos estados mais afetados pela tríplice epidemia de zika, dengue e chikungunya), questionada por esta jornalista, informa que não há recursos adicionais para a compra de repelentes.

Enquanto isso, preservativos e os mesmos repelentes são distribuídos em pontos de circulação de turistas no Rio de Janeiro. A informação é a de que sobram repelentes distribuídos gratuitamente na Vila Olímpica. E a imprensa brasileira com isso? Se limita a repercutir releases e a replicar novas promessas.

Um exemplo ocorreu com a divulgação, pelo governo de São Paulo, de que o teste de zika seria oferecido para grávidas no estado. O próprio governador Geraldo Alckmin foi à TV dizer que São Paulo seria o primeiro a ter o exame disponível para no sistema de saúde público. Mas em maio esta jornalista questionou pessoalmente o chefe da Coordenadoria de Controle e Doenças do Estado de São Paulo, Marcos Boulos, que alegou que o teste sorológico para o zika, que seria eficiente em grávidas, ainda não estaria à disposição por apresentar reações cruzadas com a dengue.

A imprensa seguiu sem questionar Alckmin e ignorando o fato de que a Anvisa tem pelo menos quatro testes sorológicos para a infecção por zika aprovados, todos eles à disposição do Ministério da Saúde.

Quando a Agência Nacional de Saúde (ANS) obrigou as operadoras de saúde a incluírem em seus planos dois exames de diagnóstico do zika, nenhum jornal lembrou de dizer que apenas 30% dos brasileiros têm planos de saúde. Tampouco lembraram os gestores públicos, que seguem fingindo que não é obrigação do Estado garantir o exame sorológico para as mulheres de baixa renda.

A própria Empresa Brasil de Comunicação (EBC) teve de rever sua cobertura sobre a epidemia e ir além das fontes oficiais, após ser cobrada por meio de seus canais de interlocução com o público. Hoje, a empresa pública de comunicação produz spots de rádio educativos sobre o tema, para distribuição gratuita em todas as emissoras do País.

Mas praticamente nada se problematiza sobre o direito ao aborto. Pelo contrário, a mídia se esforça em mostrar casos de adultos com microcefalia que vivem próximos à “normalidade”, ignorando que os problemas que se desenvolvem num bebê que nasce com a Síndrome Congênita do zika são muito diversos.

A Folha de S. Paulo fez uma pesquisa questionando o direito ao aborto no caso da grávida ser infectada pelo zika. O título da reportagem informou que a maioria dos brasileiros ainda não é favorável ao abortamento nesses casos. O jornal, porém, não destacou que 10% a mais da população defendem o direito da mulher a interromper a gravidez por conta da epidemia de zika.

O sujeito da epidemia

Tanto a ausência de políticas públicas de prevenção minimamente adequadas quanto a cobertura superficial e enviesada dos meios de comunicação tem a ver com o sujeito desta epidemia de zika: mulheres pobres, em sua maioria negras e nordestinas

São elas que não têm acesso a métodos contraceptivos via SUS, mas que ouvem declarações de gestores públicos e profissionais de saúde à imprensa dizendo que elas não deveriam engravidar.

São elas que não podem pagar por repelentes e não têm acesso a eles por meio do sistema público de saúde. São elas que estão sem saber se a gravidez pode gerar crianças com a Síndrome Congênita porque não há exames adequados; que não têm acesso ao aborto em caso de má formação; que após terem bebês notificados com microcefalia esperam meses por uma resposta sobre o diagnóstico.

São elas que podem ter suas vidas transformadas em cuidadoras em um país sem estrutura, em meio uma doença cujos desdobramentos ainda são desconhecidos.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Patricia Galvão revelou que as mulheres grávidas sabem que epidemias causadas por mosquitos não se resolvem com a simples retirada da água acumulada nos vasos das plantas. Os especialistas em epidemiologia também o sabem.

No Brasil, falta coleta de lixo universal e regular e saneamento básico com água encanada para todos, para que não seja necessário estocar esta água. Cerca de 76% das mulheres pesquisadas acreditam que o governo põe a culpa na população pela dificuldade em combater o zika, mesmo onde não há coleta de lixo e água encanada.

Mesmo assim, a comunicação oficial continua gastando recursos com foco nos sujeitos, no vasinho de planta, na limpeza da caixa d’água. É quase dinheiro jogado fora.

A mesma pesquisa do Patrícia Galvão aponta que 90% das mulheres gostariam de fazer um exame para saber se tiveram infecção por zika. Mas a imprensa segue ignorando a falta de testes na rede pública. A realidade enfrentada pelas brasileiras que utilizam o sistema público não aparece.

A verdade é que momentos de epidemia como este evidenciam problemas estruturais e estruturantes do País. Para além das deficiências do SUS, do machismo e do racismo institucional por trás da não priorização a essas mulheres, o zika vírus joga na nossa cara a ausência de uma mídia que cumpra o seu papel de cobrar do poder público a garantia de direitos a todos os cidadãos e cidadãs.

A (não) cobertura do problema do zika coloca assim, em evidência, a urgência da democratização dos meios de comunicação e a construção de uma imprensa de fato plural e diversa em nosso país.

Rio 2016: a Olimpíada das mulheres

As Olimpíadas são uma fonte copiosa de símbolos que ajudam a ilustrar certas abstrações da teoria social. Entre críticas ao modelo de execução e questionamentos acerca do legado cabe um sem-fim de outras análises, como aquela que contrasta a recepção calorosa dada à delegação de refugiados na cerimônia de abertura do evento com o tratamento dado aos refugiados em geral, que revela a euforia cínica da sociedade do espetáculo.

Tensões raciais, muito embora variedade étnica seja esperada visto que o evento é global, também podem ser articuladas ao ser levantado o histórico de proibições impostas a não-brancos no evento. (Proibições impostas por pessoas brancas, vale ressaltar o óbvio.)

No quesito diversidade sexual, o maior número de atletas assumidamente lésbicas e gays da história dos jogos, e com o dobro do número computado em Londres, pode ser um sinal positivo de maior aceitação social.

Questionar o caráter binário da divisão de gênero do evento pode parecer uma proposta, digamos, futurista para muita gente (embora seja importante lembrar que romper o binário em outras esferas já seja a realidade de um outro tanto), e é de dentro dele que faço minha análise.

Esta é a Olimpíada com a maior participação feminina da história: 45% das atletas disputando no evento são mulheres. Isso é motivo de celebração, e deve ser: nunca estivemos tão próximas da equidade, ainda que apenas em número de participação.

É significativo que estejamos celebrando o que ainda nem conta como equidade plena: é indicativo de que a luta feminista por equidade é mesmo por equidade, pois a equidade não existe nem se levarmos em consideração apenas que sequer o mais alto percentual histórico de participação de mulheres numa Olimpíada não chega aos 50%.

Além dos números e da indefectível objetificação do jornalismo tarado, também vale prestar atenção na ênfase dada a conquistas de homens em detrimento das conquistas de mulheres.

Somente durante esta Olimpíada, créditos já foram atribuídos ao marido e treinador da húngara Katinka Hosszú por uma conquista que, mesmo com a ajuda dele, é primordialmente dela (nessa nota, nunca vi ninguém creditando Judy Murray, mãe e ex-técnica de Andy, por suas múltiplas vitórias), e uma manchete do Greeley Tribune, jornal do Colorado, EUA, destacou a prata de Michael Phelps deixando em segundo plano os quatro novos ouros e recorde mundial de Katie Ledecky.

Tudo isso só na natação, que ainda por cima acabou sendo pauta viral porque a nadadora chinesa Fu Yuanhui atribuiu a má performance da disputa à sua menstruação. Nada – além dos aparentemente difíceis de enxergar machismo e misoginia – explica que falar sobre algo tão prosaico para portadoras de úteros como menstruação ainda seja quebrar um tabu.

Vale resgatar a introdução de Pierre Bourdieu ao texto Da dominação masculina, preâmbulo de seu quase homônimo livro: “A dominação masculina está tão arraigada em nosso inconsciente que não a percebemos mais, tão de acordo com nossas expectativas que até nos sentimos mal em questioná-la. Mais do que nunca, é indispensável destruir as evidências e explorar as estruturas simbólicas do inconsciente androcêntrico que sobrevive nos homens e nas mulheres. Quais são os mecanismos e as instituições que realizam o trabalho de reprodução do ‘eterno masculino’? É possível neutralizá-los para liberar as forças de transformação que eles conseguem obstruir?”

A luta pela equidade se dá em múltiplos domínios. No contexto Olímpico a busca pela metade que nos cabe (e metade no mínimo, lembrando que somos 52% da população mundial, ou seja, nunca fomos uma “minoria”) está acontecendo e vai continuar, seja a demanda por representatividade com números, por representação livre de objetificação, ou por protagonismo, material ou simbólico.

No tenso jogo que levou a seleção feminina de futebol às semifinais, Chloe Logarzo fez um gesto em campo que contribuiu com o coro da #OlimpíadaDasMulheres justamente por fazer o que Bourdieu propõe: “explorar as estruturas simbólicas do inconsciente androcêntrico”.

A jogadora australiana obstruiu a doxa patriarcal com medalha de ouro na modalidade iconoclastia do falocentrismo vigente, mesmo que na transmissão ao vivo por rádio e TV comentaristas tenham descrito suas mãos espalmadas e unidas pelas pontas dos dedos mais ou menos na altura do útero – provavelmente representando uma vagina – como “um coração”.

O que poderia ter sido descrito como uma manifestação gestual do empoderamento feminino – para dar um exemplo de um eufemismo possível, já que falar sobre vaginas ou pênis em rede nacional também é tabu – foi imediatamente ressignificado como o genérico “coração”.

Quer tenha sido por ausência de (re)conhecimento ou por pudor, a manifesta vagina simbólica de toda forma foi apagada da narrativa da mídia para ser reconfigurada como um outro símbolo, menos contestado. Um coração não é mais ameaçador do que uma vagina – mas parece que simplesmente falar sobre um deles é.

Outro espetacular lembrete disso tudo, que antecipou as inevitáveis e esdrúxulas comparações que a mídia insiste em fazer entre atletas mulheres e homens, foi condensado na seguinte declaração: “Eu não sou o próximo Usain Bolt ou Michael Phelps. Sou a primeira Simone Biles”.

Asserção simples, que demonstra a força verdadeiramente transformadora da premiada ginasta estadunidense. #BlackGirlMagic desobstruindo a doxa patriarcal com medalha de ouro nas modalidades protagonismo e poder de fala.

 

 

Fonte: por Marina Pita em Intervozes/CartaCapital/Municipios Baianos/Portalg14

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