a charge das inesperadas profissões de atletas olímpicosPara muitos atletas olímpicos, conseguir chegar aos Jogos já representa a realização de um objetivo de vida. Um sonho que muitos tiveram de dividir com um emprego convencional durante anos e meses de preparo atlético.

São pessoas que agora estão voltando ao batente. Abaixo, saiba o que alguns atletas fazem para ganhar a vida – e, em alguns casos, para bancar o sonho olímpico.

A moça do marketing

Nascida na Colômbia e criada na Suíça, Nathalie Marchino trabalha no departamento de marketing do Twitter, na Califórnia.

Ela jogou pela seleção de rúgbi de sete da Colômbia. Aos 35 anos, é uma das mais experientes atletas da equipe – no passado, jogou também pela seleção americana de rúgbi sete.

No Rio, ela teve uma participação discreta em cinco partidas – a seleção colombiana foi eliminada na primeira rodada.

“Combinar meu trabalho com o rúgbi faz parte da minha realidade há tanto tempo que já aceitei que é isso mesmo”, disse, sobre a extenuante carga horária que divide entre o esporte e o emprego.

‘Corro de casa em casa’

Nascida no Irã e refugiada na Bélgica, Rahaleh Asemani tinha garantida sua ida aos Jogos mas, até dois dias antes da competição, não sabia qual país representaria.

Ela considerava representar o time olímpico de refugiados, quando finalmente obteve seu registro como belga.

“Trabalho como carteira, corro de casa em casa entregando cartas”, disse a atleta, que chegou à semifinal do taekwondo categoria menos de 57 kg, mas acabou perdendo a luta pela medalha de bronze.

Do agito à meditação

O japonês Kazuki Yazawa diz que sua principal ocupação é estudar o budismo, e que usa o tempo livre para praticar canoagem.

Ele pôs à prova sua força e sua destreza na competição de slalom K1 no Rio, que o levaram ao 11º lugar na semifinal.

Quando não está remando contra forte correntes e redemoinhos, Yazawa se dedica a uma ocupação bem menos agitada: se prepara para ser sacerdote budista.

“Decidi que este seria meu trabalho pricipal e que minha vida como canoísta seria no meu tempo livre”, disse ele, antes de viajar ao Rio.

Mãos prodigiosas

Michelle Carter mantém um estúdio de maquiagem profissional nos Estados Unidos, ao qual dedica seu tempo quando não está lançando a bola de metal de 4 kg característica do arremesso de peso.

As mãos de Michelle Carter são poderosas. Ela ganhou a medalha de ouro no Rio graças a um lançamento de 20,63 metros de distância, mais de 20 cm acima da marca de sua rival mais próxima.

Quando não está treinando com o peso, Carter sustenta delgados pincéis em seu estúdio de maquiagem profissional. Além disso, ela tem uma linha própria de produtos, Shot Diva.

“Acredito que quando alguém toma tempo para cuidar de si mesmo, está aumentando sua confiança”, diz Carter.

Analistas de negócios

A norte-americana Maya Dirado foi uma das atletas mais bem sucedidas no Rio: ganhou o ouro nos 200m costas, ouro no revezamento 4x200m livre, prata nos 400m medley individual e bronze nos 200m medley individual.

Mas a nadadora Dirado é também um analista de negócios formada pela Universidade de Stanford. Trabalha em uma empresa de consultoria Califórnia, para onde volta em setembro.

Outros profissionais vitoriosos (no esporte e fora dele)

A também nore-americana Gwen Jorgensen ganhou o ouro no triatlo feminino nos Jogos do Rio. Desde 2010, contudo, ela trabalha como contadora em uma empresa da cidade de Milwaukee, nos EUA.

Por sua vez, Gerek Meinhardt, bronze com equipe de esgrima norte-americana ono Rio, atua como analista de risco de uma empresa de consultoria em São Francisco.

Ele se formou com louvor pela Universidade de Notre Dame, onde fez um mestrado em administração. Em 2014 foi o número 1 do mundo na esgrima.

O companheiro de equipe de esgrima, Miles Chamley-Watson, que também ganhou o bronze, é modelo profissional.

Outro caso de atletas com trabalhos convencionais é o de Matthew Abood, nadador australiano que no Rio ganhou a medalha de bronze no revezamento 4x100m livre. Ele divide o tempo treinando nas piscinas e trabalhando como analista de negócios no banco do Commonwealth na Austrália.

E, embora não tenha levado medalhas para casa, a corredora canadense Lanni Marchant, advogada graduada pela Universidade de Ottawa e na Universidade de Michigan, competiu a prova dos 10.000 metros e a maratona.

Com a ajuda do público

Curiosamente, os EUA, país que mais ganhou medalha nos Jogos do Rio Olímpicos, não têm um programa de governo para apoiar seus atletas. Isso fez com que alguns pedissem ajuda financeira na internet.

Por meio de um site de financiamento coletivo, Jeremy Taiwo pediu doações para levantar US$ 15 mil para custear os gastos no Rio, onde competiu o decatlo. Arrecadou US$ 54 mil.

Atletas como Taiwo, que querem dedicar tempo integral ao seu esporte, precisam de patrocinadores.

O jogador de futebol paralímpico Gregory Brigman também pediu ajuda on-line, mas a resposta tem sido muito diferente: da meta de US$ 6 mil, conseguiu US$ 2,6 mil.

Olimpíada não traz legado para saúde de cidade-sede, diz especialista

A Olimpíada incentiva a prática esportiva, mas o estímulo dura pouco e não traz benefícios de longo prazo para os níveis de atividade física da população da cidade-sede. O legado dos Jogos para saúde seria, assim, “inexistente”.

A avaliação é de Pedro Curi Hallal, pesquisador brasileiro e professor de Escola Superior de Educação Física da UFPEL (Universidade Federal de Pelotas), no Rio Grande do Sul.

“Apesar de as pessoas se sentirem motivadas a fazer um esporte por causa da Olimpíada, não há evidência científica de que o evento aumente os níveis de atividade física da população da cidade-sede a longo prazo, diz ele à BBC Brasil.

“Mas os Jogos são um momento ideal para se falar sobre a prática esportiva”, ressalva.

Hallal foi um dos autores de uma série de artigos analisando o progresso na atividade física da população mundial no último ciclo olímpico – período de quatro anos entre os Jogos. O estudo, que contou com especialistas de todo o mundo, foi publicado em uma das mais prestigiadas revistas científicas do mundo, a Lancet.

Uma das principais conclusões é de que o sedentarismo custou à economia mundial entre US$ 67,5 bilhões a US$ 145,2 bilhões (R$ 215,8 bilhões a R$ 464,1 bilhões) só em 2013. No Brasil, o custo foi de US$ 2 bilhões (R$ 6,4 bilhões).

Na pesquisa, Hallal e outros especialistas citam um levantamento realizado pelo australiano Adrian Bauman, da Escola de Saúde Pública da Universidade de Sydney.

Bauman analisou os Jogos Olímpicos de Verão e de Inverno a partir da Olimpíada de Sydney, em 2000, e descobriu que não houve “efeitos significativos” nos níveis de atividade física das populações das cidades-sede.

Razões

Na Inglaterra, palco da Olimpíada anterior, o legado de Londres 2012 para a prática de esportes ainda é tema de debate local: o mais recente levantamento da organização Sport England, de junho, mostra aumento no número de pessoas com 16 anos ou mais que praticam esporte ao menos uma vez por semana.

Mas esse número teve altas e baixas desde 2012, a ponto de, no ano passado, o governo prometer rever sua política de estímulos ao esporte, segundo o jornal The Guardian. Uma das maiores preocupações era com uma tendência de queda da prática esportiva entre as classes econômicas mais desfavorecidas.

Como a Olimpíada do Rio acabou recentemente, ainda não houve tempo para verificar se o impacto será semelhante aos observados nas demais Olimpíadas. Mas Hallal acredita que a tendência deve se manter – e explica as razões.

“Durante a Olimpíada, as pessoas com certeza se sentem motivadas e estimuladas a experimentar um esporte. O meu filho de sete anos, por exemplo, ficou impressionado com o desempenho do Usain Bolt (velocista jamaicano) e me pediu para levá-lo a uma pista de atletismo e cronometrar seu tempo”, diz ele.

“O problema é que o nível de atividade física das pessoas no seu cotidiano é determinado por uma série de fatores que são muito mais complexos do que a simples vontade de praticar um esporte”, acrescenta.

“Transformar as instalações olímpicas em espaços públicos não garante o uso. É preciso um investimento contínuo em promoção da saúde e do esporte”, defende.

Segundo reportagem do jornal Folha de S. Paulo, a adaptação completa do Parque Olímpico como legado deve durar “dois anos”.

De acordo com a Prefeitura do Rio, o Complexo Esportivo de Deodoro, onde foram realizadas algumas competições – como canoagem, hipismo e hóquei – terá uma utilização mista. O Parque Radical, por exemplo, vai se tornar uma área pública de lazer.

Além disso, o Estádio Aquático se transformará em dois ginásios, que serão instalados em áreas onde não há opção para práticas de esporte atualmente.

Conscientização geral

Entre as medidas sugeridas por Hallal para estimular a prática esportiva estão, por exemplo, fechamento de ruas nos fins de semana, espaçamento de pontos de ônibus, construção de academias populares e qualificação das aulas de educação física nas escolas.

“O Canadá, por exemplo, é um caso de sucesso no combate ao sedentarismo infantil ao diversificar as aulas de educação física. Já Bogotá, na Colômbia, ganhou destaque com o fechamento de ruas durante os fins de semana. Por fim, a ‘Academia da cidade’ (academias gratuitas com supervisão de profissionais), em Recife (PE), é outro exemplo que merece elogios”, enumera.

Para Hallal, não basta “conscientizar a população” sobre os benefícios da prática esportiva.

“Não podemos nos limitar a motivar as pessoas a fazer exercícios físicos, mas sim criar oportunidades”, defende.

“Todo mundo sabe que fazer exercício físico é bom para a saúde. É preciso mais do que isso. É necessário que todos os entes se conscientizem, desde o empresário, instalando chuveiros para funcionários que queiram ir trabalhar de bicicleta, por exemplo, aos gestores públicos, que sabem que se não investirem na área, a população vai ficar mais doente e sobrecarregar o sistema de saúde”.

Brasil

Sobre o Brasil, Hallal diz que o país sofreu um “revés” nos últimos anos, apesar de continuar sendo referência mundial na captação de dados e de pesquisa sobre saúde populacional, além da elaboração de políticas, como a Política Nacional de Promoção da Saúde e o Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT).

“No mundo real, o Brasil não tem conseguido lidar bem com a promoção da saúde no âmbito populacional”, destaca.

“Legado não se faz só com edificação da estrutura esportiva, mas com investimento contínuo em promoção de saúde e esporte. E nisso a gente está muito mal”, opina.

Segundo dados oficiais, praticamente a metade dos brasileiros (46%) não pratica nenhuma atividade física. A OMS (Organização Mundial da Sáude) recomenda um mínimo de 150 minutos de atividade de intensidade moderada por semana.

 

Fonte: BBC Brasil/Municipios Baianos/Portalg14

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