Por: Luiz Ruffato

Não sei se era esse o propósito do presidente não eleito, Michel Temer, mas ele certamente fará jus, no futuro, a mais que uma mera nota de pé de página nos compêndios de História do Brasil, por seu papel fundamental na desestabilização do frágil alicerce em que se assenta a jovem democracia brasileira. Eleito vice-presidente, Temer conspirou, desde o primeiro dia, pela queda da presidente Dilma Rousseff, objetivo alcançado um ano e meio após a posse de seu segundo mandato, com o auxílio de um Legislativo corrupto e de um Judiciário acovardado, e apoiado no egoísmo de uma classe média branca ressentida. Temer contou ainda com a apatia atávica da maior parte da população e com a inexistência de uma oposição organizada em movimentos sociais e partidos políticos, desmoralizados, esses, esvaziados e instrumentalizados pelo PT, aqueles.

Em seis meses, vimos Temer, cinicamente alçado à condição de liderança anticorrupção, perder seis ministros por envolvimento em denúncias de corrupção, além de ele mesmo ter sido acusado por Marcelo Odebrecht, ex-presidente e herdeiro da empreiteira, de ter intermediado o recebimento de R$ 10 milhões destinados ao PMDB, segundo A Folha de São Paulo. Temer foi citado 43 vezes na delação premiada feita pelo ex-vice-presidente de Relações Institucionais da Odebrecht, Claudio Melo Filho. O executivo mencionou outras 45 vezes o nome do ministro Eliseu Padilha, da Casa Civil, considerado por ele “preposto de Temer”: “Padilha concentra as arrecadações financeiras do núcleo político do PMDB para posteriores repasses”, explicou. Recentemente, em uma das fazendas do ministro, em Mato Grosso, alvo de duas ações do Ministério Público por degradação ambiental, foram encontradas 18 espingardas… Melo Filho ainda arrola em seu depoimento o secretário de Parceria e Investimentos, Moreira Franco, e o líder do governo no Senado, Romero Jucá. Aliás, Padilha, Moreira Franco e Jucá já foram ministros anteriormente: Padilha nos governos Fernando Henrique Cardoso e Dilma Rousseff; Moreira Franco no governo Dilma Rousseff; e Jucá no governo Lula…

Também em seis meses, vimos Temer, autoritariamente, propor mudanças significativas em setores essenciais como educação e saúde, visando o estabelecimento de um Estado mínimo, como o preconizado pelo PSDB, derrotado nas eleições de 2014. A intenção de Temer, de preparar o terreno para um possível governo tucano em 2018, esbarra, no entanto, no envolvimento das principais lideranças do partido em denúncias de corrupção. Segundo o jornal Folha de S. Paulo, depoimentos de executivos e diretores da Odebrecht citam o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, codinome Santo, como beneficiário nas planilhas da empreiteira. O senador Aécio Neves e o ministro das Relações Exteriores, José Serra, já estão sob investigação da Operação Lava Jato. E até hoje o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso não esclareceu a denúncia da jornalista Miriam Dutra, que o acusou de usar de um contrato fictício para enviar dinheiro para ela e seu filho no exterior, e ele agora precisa explicar as doações ao instituto que leva seu nome feitas pela Odebrecht.

Vamos terminar o ano com um crescimento negativo do Produto Interno Bruto (PIB) estimado em 3,5%, ou seja, completaremos dois anos consecutivos de recessão, algo inédito desde a quebra da bolsa de Nova York, em 1929, quando a economia do Brasil, em 1930 e 1931, encurtou 2,1% e 3,3%, respectivamente. Esse fator, aliado à instabilidade política, provocada pelos sucessivos escândalos envolvendo o governo Temer, levou o senador tucano, Tasso Jereissati, um dos grandes empresários brasileiros, a afirmar que “gigantes do mercado estão se perguntando se não é hora de deixar o Brasil”. Ao invés de elucidar as denúncias que pesam contra ele, Temer pensa em anular as declarações que o incriminam…

Michel Temer logrou ainda um grau de impopularidade crescente em seus poucos meses à frente do Executivo. Realizada ainda antes do depoimento de Melo Filho, pesquisa do Instituto Datafolha mostra que o governo Temer é avaliado como ruim ou péssimo por 51% dos entrevistados, regular por 34% e ótimo ou bom por 10% – números que em julho estavam em 31%, 42% e 14%, respectivamente. Nem os mais argutos futurólogos são capazes de prever o que irá acontecer com o Brasil: renúncia de Temer até 31 de dezembro, como querem 63% dos ouvidos na mesma pesquisa pela Datafolha, com exigência de eleição direta para o cargo?; impeachment ou renúncia no ano que vem, com eleição indireta pelo Congresso Nacional (neste caso, pergunta-se, com que legitimidade?)?; ou ainda renúncia no ano que vem, com mudança constitucional para possibilitar novas eleições, como quer o ex-presidente Fernando Henrique?

Enquanto isso, o país desmorona.

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