apos-fim-da-olimpiada-empresas-e-torcedores-temem-caloteMais de um mês após o fim da Olimpíada, empresas que prestaram serviços dizem aguardar o pagamento de dívidas de até R$ 10 milhões por parte do Comitê Rio-2016 – e torcedores reclamam de ainda não terem recebido o reembolso de ingressos devolvidos.

Segundo pessoas que desistiram de entradas, não há resposta por telefone, email ou na página oficial da Rio-2016 no Facebook. Há quem tema calotes de mais de R$ 5 mil.

Os torcedores afirmam que a central de atendimento não funciona mais e que o email informado na gravação e nos contratos emite somente respostas automáticas. Nas redes sociais oficiais da Rio-2016, posts, comentários e mensagens privadas são ignoradas, acrescentam.

As empresas, por outro lado, dizem que seu canal de comunicação com os organizadores continua aberto – e que os organizadores têm dado prazos para pagar e reiterado que honrará os contratos.

Procurado pela BBC Brasil, o Comitê Rio-2016 admitiu as dívidas com as empresas e afirmou que “vai honrar todos os pagamentos até o final de outubro”. Sobre os torcedores, afirmou que alguns deles interpretaram errado o prazo de pagamento do reembolso.

Além disso, informou que há dinheiro em caixa, descartando a possibilidade de calote ou de mais pedidos de resgate ao governo, como o ocorrido às vésperas da Paralimpíada.

Prazos, protesto e ações judiciais

Gerente da empresa Sunplus, que prestou serviços de limpeza em 27 instalações dos Jogos, entre elas o Parque Olímpico, Danielle Vasconcelos conta que a promessa era de receber cerca de R$ 6 milhões até a última sexta – mas isso não havia ocorrido até a publicação desta reportagem.

Na semana passada, 200 funcionários da empresa protestaram diante da sede do Comitê Rio-2016 por causa do não pagamento de salários.

“Tivemos que tirar do capital de giro da empresa para pagar esses 2,5 mil funcionários. Prometeram pagar até essa última sexta-feira. Não pagaram o que na verdade já estava atrasado. Não é justo, prestamos o serviço da melhor forma possível. E agora, o que ganhamos? O calote olímpico”, diz ela.

Seus funcionários trabalharam do período anterior ao início da Olimpíada até a desmontagem das instalações, ao fim da Paralimpíada, explica.

“Enquanto havia competição, recebemos direitinho. Foi só acabar a Paralimpíada que não pagaram mais nada. Eu acho uma falta de respeito. Se não cumprirem o prazo desta semana, vamos partir para os trâmites legais.”

No fim de setembro, a Justiça do Rio determinou que R$ 9,8 milhões fossem bloqueados das contas bancárias do Comitê após a empresa ucraniana Euromedia, que forneceu banners e faixas, entrar com uma ação alegando o não recebimento de valores devidos – a Rio-2016 diz tratar-se de uma disputa gerada por interpretações diferentes dos contratos.

Em outro caso, a empresa Classic Metal, do interior de São Paulo, subcontratada pela Elton Geraldo de Oliveira ME, que forneceu bancos de reserva e acessórios para competições de rúgbi, futebol, hóquei na grama e vôlei de praia, afirmou na reta final dos Jogos que ainda não tinha recebido cerca de R$ 500 mil e que temia um calote.

Procurados pela BBC Brasil, o proprietário da Classic Metal, Pedro Galhardi Neto, e da contratante, Elton de Oliveira, dizem que ainda há dinheiro a ser recebido.

Por outro lado, a empresa carioca Masan, que contratou 4 mil funcionários para fornecer serviços de alimentação e limpeza, afirmou que aguarda o pagamento de mais de R$ 20 milhões – desse valor, cerca de R$ 10 milhões já estão atrasados.

O Comitê Rio-2016 diz que os compromissos serão honrados. “O Comitê continua aqui. As pessoas ficam inseguras porque os Jogos acabaram e acham que foi tudo encerrado. Mas nosso processo de mobilização foi planejado e está sendo seguido. Se mudarmos para um lugar menor, também vamos informar.”

Os organizadores argumentam que a redução de seu quadro de funcionários de cerca de 4 mil para 200 desde o término dos Jogos tem impactado a velocidade com que os pagamentos são processados.

“Mas estamos conversando com todos eles e buscando acelerar”, disse o Comitê, que não especificou quantos dos 20 mil fornecedores ainda não receberam seus pagamentos.

Sem resposta

Torcedores em busca do reembolso de ingressos, por sua vez, dizem estar sendo ignorados.

“O curioso é que na página do Facebook deles ainda há posts constantes sobre os Jogos, e eles respondem mensagens sobre lojas, leilões, mercadorias. Mas quando questiono sobre o dinheiro dos ingressos sou ignorado, simplesmente não respondem nada”, afirma o bancário carioca José Paulo Sodré Jr., de 35 anos.

De um total de R$ 880 em ingressos devolvidos, ele recebeu apenas R$ 220. Segundo ele, a informação era de que o reembolso ocorreria 30 dias após o término da Olimpíada – 21 de setembro.

“Na central de telefone ninguém mais atende, só uma gravação. No email não há resposta e por inbox no Facebook já mandei três mensagens e nada. Meu medo é que eles encerrem tudo, e aí vamos cobrar de quem?”

O engenheiro químico Armando Capellini, de 38 anos, mora no interior de São Paulo e tem R$ 1.520 a receber por oito ingressos de vôlei de praia e de quadra devolvidos. Ele enviou as entradas por Sedex e, segundo as regras impressas no contrato, receberia o dinheiro no prazo máximo de 30 dias após o recebimento da correspondência.

“Meu prazo expirou na última sexta e não recebi nada. Eles continuam levantando dinheiro com leilões, vendas de mercadorias em lojas, mas não nos pagam. Olho o extrato do cartão de crédito todo dia e nada, é claro que temo que deem calote. Vou ao Procon essa semana.”

A carioca Taiana Dornelas, de 35 anos, que também enviou seus bilhetes via Sedex, tem R$ 850 a receber – o prazo para receber o valor venceu em 9 de setembro. “Eles têm tanto o meu dinheiro quanto o dinheiro de quem comprou meu ingresso depois que eu coloquei (o bilhete) à disposição deles para ser revendido”, diz.

Sem resposta do Comitê, um grupo de torcedores criou a página “Queremos nosso reembolso Rio 2016” no Facebook.

‘Tudo será resolvido’

Segundo o Comitê Rio-2016, os torcedores interpretaram que o prazo de “30 dias após o término dos Jogos Rio-2016” deveria ser contado a partir do fim da Olimpíada – ou seja, que receberiam até 21 de setembro -, mas que a data real é 18 de outubro, um mês após o encerramento da Paralimpíada.

“Os Jogos Rio-2016 terminaram dia 18/9, com o fim da Paralimpíada. Trinta dias após isso é 19/10, o que ainda não chegou. Não é um novo prazo, é o prazo informado desde o início”, diz o Comitê em nota, acrescentando que “tudo será resolvido”.

Frente às queixas de vários torcedores de que não conseguem obter resposta, os organizadores dizem que “não há problemas no contato”.

“A central telefônica foi desativada, mas deixamos uma gravação bem clara informando um email para dúvidas e solicitações, o sac-tkt@rio2016.com. Ele é tratado pelo time de ingressos do Comitê Organizador dos Jogos Rio-2016, que continua trabalhando até que todas as pendências com clientes sejam sanadas.”

Sobre os temores de calote por parte de empresas e de torcedores, a Rio-2016 disse à BBC Brasil que tem “um compromisso com a sociedade” e que “o Comitê continua aqui, com seus telefones funcionando, embora com menos funcionários”, e que não há motivo para insegurança do público, pois “o processo de desmobilização foi planejado”.

A BBC Brasil procurou a Prefeitura do Rio, o Governo do Estado e o Ministério da Casa Civil – as três esferas de governo assumiram a responsabilidade de sanar deficits do Comitê Rio-2016 -, mas não os órgãos não comentaram.

 

Fonte: BBCBrasil/Municipios Baianos/Portalg14

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