Além de popularidade Temer perde credibilidadeCom a popularidade em queda livre, Michel Temer disse hoje que o caminho certo nem sempre é o mais popular. Afirmou que “não há mais espaço para feitiçaria”. Declarou que tem “coragem” e faz o que precisa ser feito: impõe um teto para os gastos públicos, propõe a reforma da Previdência. O presidente tem razão. Às vezes, os melhores remédidos são os mais amargos. O problema é que Temer não está perdendo apenas a popularidade.

Na pesquisa divulgada hoje pelo Ibope, alguns dados chamam especial atenção. Por exemplo: apenas 21% dos basileiros avaliam que o governo Temer é melhor do que a gestão Dilma. Para 42%, Temer é igual a Dilma. Para 34% Temer é pior que Dilma. Somando 42% com 34%, verifica-se que 76% dos brasileiros acham que tudo ficou a mesma porcaria ou piorou depois da saída de Dilma.

Entre os fatores que puxam a imagem de Temer para baixo, o principal é a pasmaceira econômica. Mas não é só. O brasileiro nota que a autoridade do presidente começa a ser triturada pelo moedor da Lava Jato. Mais do que a popularidade, Temer perde, aos pouquinhos, a credibilidade.

Há um ano e três meses, quando a aprovação de Dilma estava em 7%, Temer disse: “ninguém vai resistir três anos com esse índice baixo.” Hoje, a aprovação de Temer está em 13%. Se continuar caindo, Temer terá de lutar não pela reforma da previdência, mas pelo próprio mandato.

Excesso de inocência ainda vai derrubar Temer

Michel Temer considera-se dono de uma honradez incrível. E as delações da Odebrecht levam o brasileiro enxergar em Temer uma inocência tão inacreditável que começa a suscitar uma dúvida: para que serve a honradez do presidente? Descobriu-se que o nome de Temer foi citado pela terceira vez em delação da Odebrecht.

Márcio Faria da Silva, um dos principais executivos da empreiteira, contou a procuradores da Lava Jato que providenciou um repasse financeiro para o PMDB, em 2010, a pedido de Temer e Eduardo Cunha. Fez isso em troca do azeitamento de negócios com a Petrobras.

Segundo o delator, a transação foi acertada em reunião no escritório de Temer, em São Paulo. Participou da conversa, além de Cunha, outro personagem tóxico: João Augusto Henriques. Vem a ser um operador de propinas do PMDB dentro da estatal petrolífera.

Instado a esclarecer, Temer admitiu ter recebido um empresário a pedido de Eduardo Cunha. Afirmou que o sujeito manifestara o desejo de fazer doação eleitoral ao PMDB. O operador João Henrique estava presente, Temer também admitiu.

Temer jura que não se falou na reunião nem de dinheiro nem de contrapartidas. Se Eduardo Cunha celebrou negócios depois do encontro, agiu por sua conta e risco. Ai, ai, ai. A explicação do presidente vale como uma caricatura burlesca do bordão “eu não sabia.”

As novas revelações chegam nas pegadas da delação de Claudio Melo Filho, aquele ex-executivo da Odebrecht que testemunhou o jantar no qual o então vice-presidente Temer, em pleno Palácio do Jaburu, mordeu Marcelo Odebrecht em R$ 10 milhões. A doação foi legal, sustentam Temer e Eliseu Padilha, que o acompanhava no jantar. Caixa dois, rebate o delator, cujo depoimento já foi ratificado por Marcelo Odebrecht.

A honradez de Temer é incrível porque é difícil de acreditar que alguém que preside o PMDB há 15 anos, convivendo com cunhas, renans e jucás, ainda consegue brandir uma reputação inatacável.

A inocência de Temer é inacreditável porque não dá para acreditar que um personagem com o seu histórico —30 anos de vida pública, presidente da Câmara três vezes— é ingênuo a ponto de se deixar usar por gente como Cunha.

Temer faz lembrar um personagem secundário da peça Júlio César, de Shakespeare. Açulados por Marco Antonio, os plebeus saem à caça dos assassinos de César. Encontram Cinna. Alguém grita: “Matem-no, é um dos conspiradores!” Ouve-se outra voz ao fundo: “Não, é apenas Cinna, o poeta.” E ecoa no ar a sentença: “Então, matem-no pelos maus versos”.

O excesso de inocência, por inacreditável, ainda vai derrubar Michel Temer, o poeta do PMDB, da Presidência da República.

Temer luta contra a Globo agarrado à cadeira presidencial

Na tentativa de neutralizar o escândalo dos R$ 10 milhões recebidos por ele da Odebrecht, e outros que estão prestes a sair do forno, Temer preparou um pacote natalino para os empresários e para a classe média.

Aos trabalhadores, há dois dias, Meirelles prometeu o uso de parte do FGTS para pagar dívidas pessoais, mas isso ficou de fora do pacote final. Era só um primeiro de abril.

No fundo, no pacote de Temer, não se tem uma política pública, mas um megaesquema de propina que pretende envolver parte do país na corrupção e, com isso, dar uma cala boca àqueles grupos que, incitados pela Globo, foram os principais responsáveis pelo impeachment de Dilma. A classe média, em especial, serviu aos objetivos do golpe fornecendo, através dos protestos (“a voz das ruas”), a imagem da legitimidade para a derrubada do governo do PT.

No seu raciocínio típico do “cretinismo parlamentar” brasileiro, que seria melhor chamado de “delinquência parlamentar”, Temer avalia que, no fundo, o descontentamento com o seu governo, ou melhor, a parte do descontentamento que deve ser levada à sério, o da classe média e, particularmente, o dos empresários, tem uma razão simples: eles estão esperando a paga pela derrubada de Dilma.

Com essa visão de mundo baseada em toma-lá-dá-cá, em farinha pouca o meu pirão primeiro, em é dando que se recebe, Temer arquitetou essa manobra que, na falta de nome melhor, deve ser chamada da PropiNatal.

Basta um exemplo para compreender o sentido geral dessas medidas: empresas com faturamento anual de até R$ 300 milhões, uma quantia enorme, poderão renegociar suas dividas com o BNDES. O que significa renegociar? Significa reduzir drasticamente os valores a serem pagos aos cofres públicos.

Um grande prejuízo para o país para que Temer possa corromper com suas propinas natalinas o país inteiro.

Sob o mantra da urgência para debelar o déficit fiscal, a PEC 55 foi imposta ao país como uma máquina de tortura, que limita todos os gastos, congela investimentos e, na mão inversa dos governos Lula e Dilma, distanciam o público dos benefícios da cidadania. Reduz-se os gastos sociais, prepara-se o aniquilamento dos sistemas públicos de educação e saúde, o sucateamento das universidades públicas, o fim do SUS.

De forma complementar, segue a Reforma da Previdência, com o objetivo básico de tomar aos trabalhadores, boa parte do que já pagaram ao estado na expectativa de suas aposentadorias e, para a grande maioria, a finalidade de tornar impossível a retirada do mercado de trabalho.

Nunca se imaginou, em nenhum lugar, que um governo sem qualquer legitimidade pudesse ousar medidas tão drásticas e destrutivas. E, na verdade, se o governo Temer pôde chegar à tanto, foi justamente porque, devido à sua imensa fraqueza, se viu e se vê forçado a fazer aqui que a mídia, a Fiesp, a CNI, a Febraban, ditam ao seu ouvido.

No entanto, a cada medida que aprova, mais essas forças querem abreviar o seu tempo de vida, jogar o seu governo na sarjeta, e apagar seu nome da história. Eles querem o milagre, mas não o santo. Ou melhor, os santos. Moreiras, Padilhas, Geddels, devem ir para o inferno o quanto antes.

Buscando uma tábua de salvação, e para um corrupto radical só a corrupção salva, Temer decidiu corromper a parte inferior do espectro do golpe, isto é, a massa de empresários e da classe média que apoiou o golpe por ódio ao PT, aos trabalhadores, aos nordestinos, aos negros, enfim, ao grosso da população do país.

Para isso, recorreu ao seu pacote de medidas. Acontece que seus parceiros preferenciais, as Fiespes e as Globos, os grandes promotores do golpe, não estão nada satisfeitos. As tentativas de Temer de se agarrar desesperadamente ao poder, criam riscos cada vez maiores de instabilidade.

A briga nesse momento já se disseminou em todas as direções. Brigam o Judiciário e o Legislativo, o STF e o Senado, os PSDB e o PMDB, o Sudeste é jogado contra o Nordeste, dentro do STF, por força do redemoinho que faz o país girar, os ministros de desentendem, Gilmar Mendes, numa semana, ataca Marco Aurélio de Mello, na outra parte para cima de Luiz Fux, o que se explica pelo dedo estendido da Lava Jato em direção ao PSDB. As instituições estão cambaleando no ringue, e isso significa riscos reais.

Riscos reais porque dessas instituições, quando golpeadas, não escorre sangue, mas dinheiro. São os supersalários dos arautos da Lei e da Justiça, de um lado, e a corrupção pandêmica dos legisladores, de outro. Vendo isso ao vivo e à cores, todo dia, não é impossível que a população massacrada pela PEC 55 e a reformas se rebele.

A Globo, a Fiesp, a CNI, temem essa possibilidade muito real: uma revolta social de grandes proporções que derrube a lona sobre o picadeiro e ponha fogo no circo. E não se está longe disso. Num país de grandes injustiças, tudo está sempre por um fio. Por isso temos PM, isto é, uma policia militar. Um regime policial militar só se tem em países que vivem em estado de sítio. E no Brasil, o sítio é permanente.

Temer, à rigor, já perdeu todas as condições de governar. Suas medidas desesperadas são criminosas e um assalto enorme aos cofres públicos feito à queima roupa e a céu aberto. Isso amedronta e assusta a Globo que sabe que, na aventura do impeachment, jogou seu destino.

E também os demais promotores do golpe olham esses gestos delinquentes com muita preocupação. Isso aumenta o ódio da população. Os riscos crescem. É claro que quem coloca certos tipos dentro de casa, corre depois o risco de ser estrangulado por eles. Foi assim com o PT. Pode ser assim com outros parceiros. O conde Drácula quer curtir o Natal mas sem estaca enterrada no peito.

Tensão no Planalto com a possibilidade de Cunha fazer delação premiada

Atordoados com a delação premiada da Odebrecht, o presidente Michel Temer e assessores deveriam se preocupar também com Eduardo Cunha, um antigo aliado e companheiro de tratativas sigilosas com executivos da empreiteira. Pessoas próximas do ex-deputado veem na decisão do juiz Sergio Moro de transferir Cunha da carceragem da Polícia Federal em Curitiba para uma penitenciária comum um fator de pressão psicológica para que ele tope delatar, hipótese considerada remota até poucos dias atrás. Sua defesa foi contra a remoção. Pediu que ele ficasse até fevereiro na PF.

Aos raros aliados que lhe restam, Cunha sinalizou que, no caso de ir para um presídio, em condições espartanas e regras de visita rígidas, as chances de negociar delação crescem. Sobretudo porque se esgotam as tentativas de soltura — o STJ negou nesta sexta (16) um habeas corpus.

PESO DA DELAÇÃO

Nas palavras de um amigo, o cálculo do peemedebista é de curto prazo, de semanas, porque o ex-deputado avalia que seu poder de fogo depende da força do governo de Michel Temer: quando mais fraco estiver, menos peso terá uma delação.

Temer vive hoje o pior momento no Planalto desde que assumiu. Anunciou um catado de medidas microeconômicas até relevantes, mas que estão longe de tirar o país da recessão. Sua popularidade despenca ladeira abaixo, segundo pesquisas.

A possibilidade de Cunha implicá-lo na Lava Jato em 2017 deve causar temor de iguais proporções das delações da Odebrecht já reveladas.

RECADO DE CUNHA

Reportagem de Marina Dias e Bela Megale, na Folha, mostrou, por exemplo, o que estava por trás da pergunta de número 34 das 41 que Cunha fizera ao presidente, arrolado como sua testemunha de defesa.

Cunha mandou recado, expondo reunião com Temer, um lobista e um ex-executivo da Odebrecht. Em um presídio, poderá transformar mais perguntas em relatos de supostas participações do presidente e de aliados em outros episódios nebulosos.

Congresso já sente o cheiro das quentinhas de Curitiba…

Um dos maiores problemas do Brasil é que nunca corruptos poderosos tiveram medo de cadeia. A reação cangaceira no Senado de Renan Calheiros (codinome “Justiça” na planilha de corrupção da Odebrecht) e na Câmara de Rodrigo Maia (o “Botafogo”) contra a Lava Jato são tentativas desesperadas de voltar a esse passado.

A Lava Jato é hoje o único elemento integrador do país depois das mentiras e da recessão de Dilma Rousseff, da posse de um Temer suspeito e de seu gabinete podre e das demonstrações de corporativismo retrógrado do Congresso, com um batalhão de clientes do departamento de “operações estruturadas” da Odebrecht.

LIMINAR DE FUX

A ordem do ministro do Supremo Luiz Fux para que a Câmara volte à estaca zero na análise do pacote de dez medidas contra a corrupção desfigurado pelos parlamentares pode parecer intromissão na “independência” de um Legislativo dependente de uma empreiteira.

Mas ela vai ao encontro do anseio das 2 milhões de assinaturas que apoiam as medidas. Assim como de outros milhões que protestaram nas ruas pela punição de corruptos e corruptores nos últimos meses.

Hoje temos, entre outros, Sérgio Cabral, José Dirceu, Antonio Palocci, Eduardo Cunha e Marcelo Odebrecht presos. As provas contra eles até aqui se mostraram irrefutáveis.

RENAN E SEU PROJETO

Renan “Justiça” ainda não foi condenado a nada. Mas age como se estivesse sentindo o cheiro das quentinhas ao querer intimidar os procuradores com tentativas de puni-los por abuso de poder. O projeto seria legítimo não fosse patrocinado pelo próprio Renan. E agora? Quem não deve não deveria temer, certo?

Denunciado na Lava Jato e alvo de outros 11 inquéritos diversos, o presidente do Senado tenta suas últimas cartadas para se proteger e angariar o apoio da turma de citados na operação.

NO DESESPERO

Nas próximas semanas assistiremos ao “espetáculo do desespero”. Quando mais e mais delações mostrarem como uma empreiteira mandava no país financiando campanhas e a vida desses citados.

Com sua dinâmica própria, apoio popular e dezenas de delatores já pegos no anzol, a Lava Jato mostra ser cada vez menos provável que protelações e esperneio geral livrem seus investigados. Assim como não livrou, no final, o chefe da gangue, Marcelo Odebrecht.

Dizem que gênio solto jamais retorna à lâmpada. A Lava Jato está no caminho de confirmar essa regra.

 

Fonte: BlogdoJosias/Cafezinho/Folha/Municipios Baianos

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