Aos 16 anos, Stéphanie Gonçalves Pedroso Ribeiro já tem algumas certezas. Uma delas é que não quer casar, nem ter filhos. Sobrancelhas franzem sempre que ela comenta sua decisão, mas a adolescente está convicta. Solene, anuncia que seu principal objetivo é dedicar-se à carreira de advogada. Mesma profissão da mãe, a procuradora Margarete Pedroso, 46 anos, com quem se iniciou nas conversas sobre o papel da mulher na sociedade, o medo de andar sozinha nas ruas e o tipo de roupa que é permitido ou não usar sem julgamento. Stéphanie é uma das fundadoras do coletivo feminista Tuíra, do Colégio Bandeirantes, em São Paulo. No ano passado, ela e as colegas perceberam que muitas meninas tinham interesse em discutir o machismo na escola. Nasceu, então, a ideia de montar um grupo para resolver problemas do cotidiano. Elas se reúnem para colar cartazes pelos corredores com alertas sobre relacionamento abusivo ou com frases machistas que já escutaram. “Isso me libertou, mas, ao mesmo tempo, é angustiante perceber tudo que as mulheres enfrentam diariamente.” A jovem faz parte de uma geração que descobriu o feminismo muito cedo e encontrou novas formas de lutar por seus direitos. Meninas como ela começam a compreender no início da adolescência que o tamanho da saia não as torna responsáveis por nenhum tipo de violência machista. Essas garotas redefiniram suas prioridades baseadas em anseios pessoais e não em padrões sociais estabelecidos historicamente. “Podemos ser mães, mas podemos não ser. Antes éramos criadas com apenas uma possibilidade, mas hoje há vários caminhos”, diz a estudante.

Por que elas lutam?

  • Igualdade entre os sexos é a mais importante das vertentes do feminismo. Mas não é a única.
  • Confira:

• Liberdade sexual. Viver a sexualidade sem sofrer preconceitos seja qual for a orientação

• Aceitação e amor pelo próprio corpo sem a interferência da sociedade. Entender que o padrão de beleza imposto leva mulheres e garotas comuns a recorrerem a extremos não saudáveis para alcançá-lo

• Escolher a profissão que deseja seguir sem que o mercado imponha o que é trabalho para homem e o que é para mulher

• Poder de escolha sem que a sociedade, família ou homens interfiram. Seja para ser dona de casa, trabalhar fora, sair sozinha ou usar a roupa que bem entender

• Ter a opção de formar uma família ou não ser descriminada pela sociedade por ser mulher e não querer ser mãe

“O que se vê são meninas mais cientes do direito à liberdade e à diversidade, combativas e questionadoras”, afirma a antropóloga Beatriz Accioly Lins, pesquisadora em gênero e violência contra a mulher da Universidade de São Paulo (USP). Para Beatriz, se comparado o movimento das jovens hoje ao feminismo de décadas atrás, é possível dizer que há tanto continuidade quanto novidade. “Essas meninas são herdeiras de uma luta histórica e, se elas podem demandar o fim do assédio nas ruas e a possibilidade de exercer a sexualidade sem ser condenadas, é porque muitas mulheres já lutaram para que se chegasse nesse ponto.” Além disso, essas garotas nasceram e cresceram em um momento político e social em que as mulheres possuíam – ou lutavam por possuir – mais direitos. “Em 2006, foi promulgada a Lei Maria da Penha, mas a discussão começou no final dos anos 1990 e se estendeu por mais de uma década. Esse debate na esfera pública chegou a um número muito grande de brasileiros”, afirma a advogada Marina Ganzarolli, especialista em direitos das mulheres. Outras pequenas conquistas aconteceram, como a alteração do Código Civil, em 2005, que extinguia a expressão “mulher honesta”, que só tipificava um crime se comprovada a honestidade da vítima.

CULTURA POP E INTERNET

O boom do feminismo entre as novas gerações tem muito a ver com a cultura pop, internet e redes sociais Todas as meninas entrevistadas para esta reportagem citaram alguns desses elementos como essenciais para conhecerem e se informarem sobre o movimento. Mencionam a atriz Emma Watson, a Hermione da franquia Harry Potter, e seus discursos como embaixadora da Boa Vontade da ONU Mulheres. Falam de Beyoncé e sua apresentação em uma premiação da MTV americana, em que surge no palco com a palavra “feminist” escrita em letras gigantes no telão. Pesquisadora em questões de gênero pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Gabriela Trevisan afirma ter acompanhado um aumento da discussão sobre empoderamento feminino nos últimos cinco anos. Aos 21, tem contato tanto com meninas mais novas, entrando na faculdade, quanto com professoras e pesquisadoras, já há anos envolvidas com o movimento. “Hoje é um feminismo mais midiático, tem cantoras pop e atrizes, pessoas nem sempre ligadas à esquerda, como era antigamente”, afirma. O ponto positivo é propagar as ideias, trazer o tópico à discussão. O negativo é cooptar o debate para pautas individualistas e não aprofundá-lo. A mesma crítica é feita para a internet e as redes sociais. Ao mesmo tempo em que garotas encontram informações com facilidade em pesquisas on-line e em páginas do Facebook e podem dividir suas histórias com outras mulheres, há sempre o risco de reduzir o debate à própria experiência e perder o senso da coletividade.

A maneira como as jovens tratam a sexualidade é um dos pontos em que se nota a maior transformação entre aquelas nascidas do final dos anos 1990 e início dos anos 2000. Elas rejeitam estereótipos e amarras e se permitem experimentar sem julgamentos. “Eu sou bissexual, minha irmã é lésbica, e a maioria das minhas amigas é bi”, afirma Anna Carolina Santos, 15 anos. “Uma das reivindicações é permitir que sejamos mais abertas. Se a pessoa quiser ser heterossexual, tudo bem, mas é preciso que se respeite quando uma menina não quiser ser só isso.” Fã de batons vermelhos, Carol, como costuma ser chamada, frequentemente dá uns puxões de orelha na mãe, a advogada Adriana Cecilio Marco dos Santos, 39 anos. “Um dia disse que uma menina estava usando uma roupa de periguete e ela me explicou que falar desse jeito só reforça o machismo”, diz Adriana. “Ela é meu orgulho.” Carol ainda engrossa o coro das novas feministas que acreditam que é mais importante sensibilizar para a causa do que atacar. “Muita gente que debate assuntos de feminismo briga, xinga”, afirma. “Não acho que seja por aí. As pessoas aprenderam que o machismo é normal, então é natural que reproduzam, mas estamos em um momento que o importante é torná-las mais conscientes de que certos comportamentos precisam mudar.”

Outra questão bastante discutida entre as jovens é a aceitação do próprio corpo. Desde muito novas, as mulheres são bombardeadas por imagens e estereótipos do que é ser atraente para um homem. No caso de Allany Cruz, 17 anos, a pressão veio por meio de bullying. Aos 11 anos, ela já era atacada por não ser magra. “Era a excluída da turma e sempre ouvia o quanto eu era gorda.”. Além disso, alguns homens da família repetiam o discurso de que “mulher não pode trabalhar fora de casa” e que “mulher não pode sair à noite sozinha.” Aos poucos, a ideia de aceitação foi entrando na vida de Allany. “Hoje, olho no espelho e me acho linda. Se me sentir bem comigo, é o que importa”, diz. Allany quer cursar psicologia para ajudar outras pessoas a se aceitarem e a encontrarem o amor próprio.

FEMINISMO NEGRO

A aceitação das características físicas são ainda mais marcantes na vida das jovens negras. A cor da pele, o cabelo crespo, os traços. Tudo pode ser motivo para opressão e preconceito. Mas também pode ser símbolo de resistência e amor por si mesmas. As irmãs Gabryelle e Giovanna Souza, 16 e 14 anos, nasceram com cabelos crespos, mas desde pequenas alisavam. Há dois anos, entenderam que os cachos faziam parte de quem elas eram e passaram a usar o cabelo armado. “Eu amo meu cabelo assim. Não dá para ficar melhor”, diz Gabryelle. “Hoje consigo, finalmente, me enxergar. Essa sou eu”, diz Giovanna. No colégio, a mais nova ainda escuta que o cabelo era mais bonito liso, mas deixa claro seu ponto de vista. “Se ouço algo que considero errado, não me calo.” Giovanna propaga com mais ênfase uma importante vertente do feminismo: o da mulher negra. “Só pelo fato de ser mulher, a gente já sofre por algumas questões da sociedade. Mas quando a mulher é negra, ela sofre em dobro. Além do gênero, também há o preconceito racial.” A filósofa e militante negra Djamila Ribeiro explica que no passado, o feminismo era composto por mulheres brancas, de classes sociais privilegiadas, que tinham tempo de se manifestar. “As negras estavam ocupadas em sobreviver.” Depois de um tempo restrito ao ambiente acadêmico, o debate sobre direitos das mulheres passou a ter uma preocupação popular, de chegar a outros grupos sociais. “Foi um movimento muito forte que formou a geração que está aí hoje.”

BATALHAS COTIDIANAS

Ainda que se fale muito em feminismo, nem todas as garotas se identificam como militantes. Mesmo assim, se envolvem com as pautas, por se reconhecerem nas situações de desigualdade comumente vividas pelas mulheres. Com apenas 11 anos, Caroline Gonçalves Pedroso Ribeiro é um exemplo disso. Por não poder praticar futebol em sua escola, porque o colégio oferece treinos só para meninos, ela e as colegas reivindicaram à direção aulas para meninas. Mas as coordenadoras disseram que não havia procura. Ela, então, teve a iniciativa de reunir, pelo Whatsapp, garotas que tinham o mesmo interesse pelo esporte e fez um abaixo-assinado. “Entregamos papeis em todas as salas para colher assinaturas.” Juntas, as meninas reuniram 35 assinaturas e superaram as 28 necessárias. As aulas ainda não começaram, mas o pedido foi feito. Em outros esportes, Caroline também sente a desigualdade de gêneros. “Os meninos só escolhem meninos para formar um time, mesmo em jogos mistos. Isso me incomodava, preferia que escolhessem por habilidade.” Na escola em que Caroline estuda algumas atividades incentivam o debate sobre o que é o machismo. No ano passado, a turma dela teve de escrever sobre discriminação entre gêneros. “Fiz um texto sobre rapazes que querem dançar balé e não podem”, diz. “E a redação que mais me impressionou foi a de um menino sobre uma garota que queria ser youtuber de games e todos diziam que ela deveria falar sobre maquiagem.”

“Da paz”. É assim que se define a estudante Ana Luisa Gomes de Oliveira, 17 anos, feminista e criadora de um coletivo de garotas em um colégio de padres em São Paulo. Ana vê como uma responsabilidade não somente explicar a importância do feminismo para as meninas mais novas, mas também ajudar os meninos a se aceitarem como são, sem a pressão de seguir um padrão do que é ser homem. A jovem ainda não decidiu qual carreira quer seguir, mas entre as opções está o curso de administração com desenvolvimento em produtos. “O diretor me disse que é um mercado muito masculino e que eu teria que lutar pelo meu espaço. Mas é exatamente isso que quero. Quanto mais mulheres alcançarem cargos altos, os homens também vão se beneficiar, pois terão menos peso para sustentar uma família”, afirma. “Todo mundo tem que ser livre para fazer as próprias escolhas.” A convicção de Ana, e de todas as garotas desta reportagem, mostra que uma nova maneira de ser mulher vem surgindo. Mesmo porque elas já estão criando novas formas de serem meninas. “Elas estão em um caminho de desestigmatização do feminismo e aproximação do tema dos direitos das mulheres. E o melhor é que isso está sendo absorvido pela grande mídia, deixou de ser contracultura”, afirma a advogada Marina Ganzarolli. Para a socióloga Fátima Pacheco Jordão, fundadora do Instituto Patrícia Galvão, essas garotas chegaram a um novo patamar cultural. “É um passo. Não termina aqui, porque a mudança é constante. Mas não tem mais volta.”

Por um 8 de março histórico

2017, há 100 anos da Revolução Russa e no 8 de março se prepara uma paralisação internacional das mulheres em dezenas de países. Não nos faltam motivos pra lutar no dia internacional das mulheres. As mulheres são 70% da população pobre de todo o mundo, recebem salários menores que o dos homens (que dirá as mulheres negras!), morrem por abortos clandestinos, sofrem estupros todos os dias, têm os piores e mais precários postos de trabalho, e serão as maiores vítimas da reforma da previdência e trabalhista.

Precisamos lutar porque existem mais de 13 milhões de terceirizados em nosso país e a grande maioria são mulheres, com salários menores e sem direitos trabalhistas. Precisamos lutar porque enquanto milhares de mulheres continuam sendo assassinadas apenas por serem mulheres, o goleiro Bruno é agraciado por toda a imprensa e o corpo de Eliza Samudio continua desaparecido. Precisamos lutar porque as mulheres não têm direito pelo seu próprio corpo, não têm direito à maternidade com uma saúde caótica em nosso país e condições de vida precárias e porque não têm o direito a um aborto legal, seguro e gratuito. Precisamos lutar porque ainda que os canais de TV tenham programas que falem da nossa luta, o machismo se expressa cotidianamente na vida de milhões de mulheres em todo o nosso país sustentado pelo estado capitalista, pelos patrões, pelos governos e também pela grande mídia.

Tremer com a força imparável das mulheres que se levantaram contra Trump, que se levantaram contra os assassinatos gritando “nem uma a menos” e que podem expressar um novo momento de luta, como colocam as ativistas norte-americanas uma luta feminista pelos 99% da população e não para o 1% de ricos e poderosos.

Isso abre pra nós a possibilidade de ver que além de enfrentar todo o machismo e a violência, com a maior unidade possível, precisamos enfrentar também o feminismo burguês e liberal que está aí apenas pra manter a sociedade tal como ela é. E temos a possibilidade de ser parte de um feminismo que questione essa sociedade, levantar bem alto as bandeiras socialistas e revolucionárias, nos aliando à classe trabalhadora pra dizer: o capitalismo não dá mais!

É por isso que o grupo de mulheres Pão e Rosas irá contribuir com essa discussão neste mês de março trazendo a público pelas Edições ISKRA e Centelha Cultural duas publicações da maior relevância: “Feminismo e Marxismo” e “Pão e Rosas – Identidade de gênero e antagonismo de classe no capitalismo”.

Estamos batalhando por um 8 de março unificado, e exigindo das centrais sindicais como a CUT e CTB que construam de fato uma paralisação real, onde parem todas e todos, em defesa das mulheres. Que estas centrais sindicais parem de dividir as mulheres do conjunto da classe trabalhadora, e convoquem o ato para a Avenida Paulista junto com a assembleia dos professores, categoria majoritariamente feminina.

Por nem uma a menos, a vida das mulheres negras importam. Pelas imigrantes, contra o tráfico sexual de mulheres e pela efetivação de todas as terceirizadas já. Pelo direito ao aborto legal, seguro e gratuito. Por creches, restaurantes e lavanderias comunitárias, contra os assassinatos LGBT e pela livre identidade de gênero. Contra a reforma trabalhista e da previdência do governo golpista de Temer. Queremos todos os nossos direitos agora. Mas queremos muito mais que isso. Queremos nosso direito ao pão, mas também às rosas!

Chamamos os homens que querem lutar nesta perspectiva a neste 8 de março e em todos os dias enxergar a vida com o olhar das mulheres, como dizia o revolucionário russo Leon Trotsky. Chamamos as mulheres a ser parte de um feminismo classista, revolucionário e socialista, pra lutar pelos nossos direitos mas por uma sociedade onde sejamos livres de toda a exploração e opressão. E fazemos este chamado a partir da perspectiva das mulheres trabalhadoras, negras, terceirizadas, imigrantes porque aqueles que lutam com mais energia pelo novo, são os que mais sofreram com o velho. E não temos dúvida, como a história já mostrou muitas vezes, que as mulheres serão linha de frente das grandes transformações sociais da nossa época.

 

Fonte: IstoÉ Dinheiro/Esquerda Diário/Municipios Baianos

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